Crédito desta foto: eu mesma inspiradíssima...

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23 de fev. de 2011

Cinematografando: Oscar entre reis e cisnes?*

Para você que está lendo essa blogagem, um aviso: não deu para publicar antes esses textos. Como o Oscar é amanhã, decidi postar as duas críticas: O Discurso do rei e Cisne negro. Para quem curte assistir o Oscar (eu estou fora há alguns anos), ainda dá tempo ver ambos na telona até a premiação.

O Discurso do Rei (Tom Hooper)

All hell’s breaking loose na Casa Real britânica. O respeitado rei George V está para morrer, seu herdeiro direto é um irresponsável playboy prestes a desposar uma norte-americana duas vezes divorciada, o comunismo russo floresce prometendo derrubar monarquias, a grande esperança europeia contra seu avanço é Hitler (!!!), e a última salvação britânica que deverá ser o símbolo da unidade nacional durante a Segunda Guerra Mundial é um hesitante príncipe gago... Com a figura real modernamente reduzida à função de meros atores e radialistas, com seus discursos inspiradores dirigidos à nação de aquém e além mares, a inabilidade da fala praticamente inutilizaria um pretendente ao trono.

E mesmo assim, o filme consegue criar uma agradabilíssima bolha de amenidade neste cenário desesperador.



O Discurso do Rei vai buscar a mais curiosa relação do futuro rei George VI com seu terapeuta de fala, Lionel Rogue. Seu roteiro ignora solene e objetivamente toda a grandiosidade dessa época histórica, que apenas escutamos passar como conversas de corredores e salas de espera. Quando o príncipe entra no consultório de Rogue, é como se uma passagem secreta se abrisse para fugir momentaneamente do seu hermético universo de responsabilidades, protocolos e angústias reais. Com seus métodos pouco ortodoxos para a época, e boa dose de personalidade, Rogue vai gerando e ganhando tanto a desconfiança como a confiança do príncipe, até tornar-se seu chap, seu “chapa”, amigo, camarada (ops, isso não!) e confidente, algo impensável até hoje.

Uma produção de orçamento absurdamente baixo, bem típica dos irmãos Weinstein, torna uma diversão extra observar como o desenhista de produção se esmera para driblar a falta de verba. Os planos são fechados, com poucos objetos de época muito bem valorizados em cada plano, locações semi prontas e a boa sacada para a cena que seria a mais cara, o momento da coroação, na Westminster Abbey. Assim, toda sua atenção se concentra em bons diálogos, entregues por bons atores.




Por isso mesmo, saem daqui dois fortes indicados ao Oscar de coadjuvante. Colin Firth, ótimo como o príncipe e rei, é apoiado pelos grandes Geoffrey Rush, o terapeuta, e pelo charme de Helena Bonham Carter, sua esposa Elizabeth. Com um andamento lento, o roteiro dá tempo para que o trio de ouro construa personagens muito peculiares e envolventes, estabelecendo uma contínua tensão cênica mesmo nos mais longos hiatos silenciosos.

O filme é benevolente ao rei, tanto talvez quanto seu povo o tenha sido na época, em apoio a um monarca correto e que claramente lutava contra a gagueira para enlevar os ingleses durante essa época de nuvens negras. Assim, faz um bem danado até para a família real atual ao humanizar as frias e distantes figuras reais. Uma excelente peça de Royal Marketing.


Cisne Negro (Darren Aronofsky)

Cisne Negro é um razoavelmente ajambrado filme de terror que tem surtos esquizofrênicos, cada vez menos frequentes, em que se acredita drama psicológico. Recoberto com o glacê de uma boa direção de arte, iludiu parte da crítica que o aclamou conceitual e filme de arte. Menos.

Vale muito a vista por vários motivos: consegue ser arrepiante do pelo aos ossos, é intenso, tem um roteiro bem construído e é um alívio assistir Natalie Portman e ver que ela agora, finalmente, parece que vai alçar seu voo.



Como se poderia esperar, a protagonista Nina, integrante perfeccionista de um importante corpo de balé, recria a tragédia do Lago dos Cisnes. Mantida engaiolada como um Cisne Branco por sua Rothbart-Mãe, tem a grande chance de ser erguida rainha pelo diretor artístico Thomas - Siegfried. Mas a indecisão deste pela sensualidade negrocísnica de Lily (do hebraico Lilith, pesquisem na internet) acaba a desesperando. Incapaz de equilibrar os extremos da Castidade e da Lascívia dentro de si (uma metáfora arquetípica possível da dualidade Cisne Branco e Cisne Negro), Nina termina como Freud poderia explicar, completamente histérica.

Cisne Negro quase atinge sua proposta enunciada logo no começo de ser uma versão visceral, mas erra a mão pela falta de auto-confiança, exatamente o problema que o diretor artístico atribui à protagonista Nina. Na tentativa desesperada de garantir a visceralização do espectador, exagera na dose do terror, com edição rebuscada, camera nervosa, sustos pré-fabricados, cenas de horror escatológico, sanguinhos baratos e over-acting de Natalie Portman fazendo cara de choro, e não precisava disso tudo.

A sensação que dá é que toda a equipe se imbuiu da meta e começou a arrancar olhos e intestinos, gritando ”Arghh! Sou visceral! Sou visceral!”. Outra falha patente é a falta de um posicionamento bem definido. Quer atingir tanto a garotas adolescentes (com a temática escolar da santinha pura contra a galinha da classe) quanto adultos, tanto o sexo feminino quanto o masculino. Assim, vira um pastiche disforme que o enfraquece muito como obra, dilui a poesia da ideia.



O interessante de sua trama é criar diversas camadas onde realidade se confunde com a imaginação e a ficção. E o bem sacado dessa ideia é estendê-la ao próprio casting (seleção de atrizes). Como apontado em diversas críticas, é absolutamente maquiavélico (e arrepiante) ver a ascendente Natalie contracenar com a decadente Winona Rider, ela própria uma Natalie Portman em seu tempo, o modelo juvenil-pueril feito de caras e bocas, que jamais avançou além disso.

Já Portman, elogiada por George Lucas por ser muito técnica, mesmo uma filha superprotegida, jamais pareceu viver de fato seus personagens, faltando-lhe justamente sentir e se soltar para ganhar expressão corporal. O filme parece assim, um psicodrama construído para amadurecê-la. Ainda é uma atriz de caras e bocas, mas elas estão mais densas do que nunca e conseguem assim dar credibilidade a uma história simplória e de final risível.

A direção de arte é bem urdida e, esta sim, muito conceitual. A luz é crua e a câmera nervosa persegue a protagonista e a mantém encurralada por um super close claustrofóbico. O uso obrigatório do branco e do negro em cena é consistentemente aplicado, mas não chega a ser original. Vem direto do Morte em Veneza, de Visconti, onde os dois tons disputam centímetro por centímetro o espaço cenográfico em cada plano e representam, um e outro, ora Vida, ora Morte. Contrapõe-se a começar a alvura judaico-novaiorquina de Nina à morenice matreiro-californiana de Lily. Há ainda a insistência perturbadora dos espelhos, onipresentes, indício da dualidade da alma, multifacetados, fragmentados, deformantes, multiplicantes ou estilhaçados, “refletindo” o momento interior da bailarina.

O fato é que nos tempos atuais, repleto de filmes com roteiros industrializados, de progressão mecânica e grande ênfase em pirotecnias, ficamos anormalmente encantados com histórias de estrutura clássica e direção de arte bem pensada.



* textos de Nelson Doy Jr., publicitário, residente no Rio de Janeiro e colunista oficial de cinema deste blog.

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