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3 de fev. de 2013
Cinematografando URGENTE: O Som ao Redor
Meu amigo e crítico oficial desse blog, Nelson Doy, mandou-me esse texto abaixo para publicar. Farei isso com certeza. Mas tenho que confessar que achei ainda mais fascinante que o texto o comentário que ele escreveu na lista do nosso grupo após enviá-lo: "Só acrescentando, acho que O Som ao Redor é uma grande experiência a ser vivida, vivenciada, o legal é passar por essa experiência; é um filme muito sensorial e mental: esse é o barato dele. O barato não é falar dele, mas experienciá-lo. E se não assistir no cinema, tem que assistir em casa com um som bom, que preencha o ambiente. É isso. Vivam essa experiência. Passem por esse filme."
Se vocês já estão seduzidos como eu, então corram para o cinema (uma obra assim, é bem melhor na telona, não é?), pois a película já está saindo de cartaz, mas vi que a Sala de Arte vai reexibir. Entendeu o porquê do URGENTE no título? rsrsr... Então esse texto poderia estar na seção Cinematrografando ou Rebobinando. Tudo depende da sua velocidade em comprar o ingresso do cine ou ter que ir a uma locadora (rezando para que a distribuição seja boa e chegue à uma loja perto de você, claro!) Confiram (enfim!), o texto de Nelsão, cujo primeiro título eu amei também "Aqueles e Aquilos que se nos Impõem os Seus Limites" (mas que ele resolveu mudar... Fazer o quê? rsrsr...)
"Um Peckinpah Malemolente
Já quase saindo de cartaz, fui conferir essa nova sensação do cinema nacional que é O Som ao Redor. Simples e extraordinário como um pequeno e bem resolvido tratado sociológico brasileiro e no uso da linguagem cinematográfica, é mais um fruto da geração pernambucana que já produziu, entre outros, Amarelo Manga, de Claudio Assis.
O filme retrata o cotidiano de um condomínio classe média em alguma rua, em algum bairro, que poderia ser em qualquer capital brasileira, Rio, São Paulo, BH, Salvador, Porto, você nomeia, mas que afinal ocorre, muito apropriadamente, no Recife, como se verá. Tudo começa a mudar com a chegada de seguranças que se oferecem para prestar serviço de vigilância na rua.
Nada se pode falar de O Som ao Redor sem estragar o prazer de desmontar e remontar esse pequeno quebra-cabeças, mas às vezes uma análise ajuda a curtir melhor. Você decide se continua a ler. O mais importante a dizer é que, sendo uma construção sensorial e psicológica, é fundamental passar pela experiência de assisti-lo. Se não no cinema, talvez até melhor em casa (tem tudo a ver assistir na sala ou até no quarto), mas então em home-theater com um som que preencha todo o ambiente. A sonoplastia é um ator importante no filme.
O Som ao Redor é um declarado filme de terror que de tão leve e agradável, doce, muitos quase não se dão conta disso. Em uma época em que se usa misturar gêneros, vai bem esse, misturado com um cinema tipo “MPB”, desses mesmos que retratam o cotidiano de um condomínio classe média. Não é por acaso que comece com uma reprodução marcante de O Iluminado, a cena da menina no velocípede, percorrendo os corredores do hotel mal assombrado.
O fantasma no caso, não é a violência urbana, mas a sensação dela, a possibilidade dela, que paira no ar ao redor como se o risco da invasão estivesse o tempo todo presente na vida do brasileiro. O filme todo aparenta uma naturalidade fluida e despretensiosa, mas não se engane. O roteiro é ardilosamente arquitetado e irá trabalhar essa sensação iminente ao longo de toda sua estrutura. O tempo todo ocorrem cenas ou fatos que terminam em decepção, desconcerto, que agridem de uma forma ou outra nosso senso e rapidamente desaparecem, antes mesmo de machucar. E a violência, esta nunca ocorre de fato, até o momento final. Como um lento Sam Peckinpah, diretor que criou a linguagem da tensão e do nervosismo no cinema, antecipando em quase duas décadas a tal da síndrome do pânico.
O filme trata basicamente de territorialismo, dos limites, e como as pessoas brasileiras lidam com ele. Há o espaço / limite do quarto, do apartamento, do prédio, da rua. Há o limite aéreo, do som, e o limite da imagem privativa, aos quais temos ou teríamos direito. Há o limite da privacidade do telefone celular, há o limite do horário e como se invadem todos esses limites. E há finalmente o seu limite, pessoal, como espectador. O som ao redor, que preenche insistente o silêncio da película, oprime e espreme teu silêncio interior, obrigando-o a se encolher um pouco mais adentro de si mesmo, às vezes num volume tal que te obriga a resistir contra sua invasão. Nossos limites são definidos por aqueles e “aquilos” que se nos impõem. Há até o limite imposto pelos tubarões aos banhistas nas praias da cidade... Dizem que o limite da sua liberdade vai até onde começa o limite da liberdade do outro. Mas o que dizer de um país onde o limite do outro é relativo, negociável, dubitável, confrontável?
Há na história ainda o limite do amor, do relacionamento entre duas pessoas, vivido pelos personagens líderes, e como esse casal se diferencia de todo o resto por respeitar esses limites. Um casal que se ama, abre e funde seus limites pessoais, mas respeita outros, negociados na relação. No filme, as únicas vítimas e heróis são aqueles que respeitam os limites dos outros.
O Som segue nessa construção, cada vez mais tensa, até que no final, encontra a origem dessa forma brasileira de lidar com os limites territoriais, e conecta tudo. Imperdível. Nem que seja só para compreender aquele tipo que para o carro na rua com o alto-falante tocando funk no volume máximo, só para estragar a cena bucólica de nós conversando tranquilos sobre um filme bom que pintou por aí. Uma bela aula de cinema."
25 de dez. de 2012
Um 2013 com visão de raio B
Que possamos vivenciar arte, paz, harmonia, sorrisos, prazer, amor... e tristeza também, pois ela é parte do ser humano. E, para lidar com ela, FILOSOFIA! Confira o vídeo postado no Facebook e curta a nova página do Lado B também no Facebook para ficar por dentro do não "oficial" e... carpe diem!
Aproveito a oportunidade para recomendar o filme "Gonzaga - de pai para filho". Apesar de ter perdido um pouco o time (realmente duas horas são desnecessárias), é uma obra de qualidade. Uma bela história sobre a vida desses dois grandes músicos, muito rica em lições para gente.
Aos psicólogos, filósofos, espiritualistas de plantão e outros tantos que se interessem pela natureza humana: é comovente o esforço, especialmente de Gonzaguinha, para resgatar a relação com o pai. E parece que o resgate foi profundo...
Ah, minha mãe adorou aquelas lindas "modinhas" da época dela! Está na Sala de Arte do Paseo em ótimo horário, 18h15.
29 de abr. de 2012
Cinematografando a dança com Pina
Esta crítica foi enviada para mim por Nelson Doy on time, ou seja, enquanto o filme ainda estava em cartaz. Mas, por vários motivos, acebei não publicando. Desculpa aí, Nelsão, e desculpa aí amigos do Lado B.
"Pina, de Win Wenders (2011). Nunca entendi muito a dança contemporânea, mas Pina Bausch em pessoa me explica que a dança começa exatamente aí mesmo, onde terminam as palavras, ou a possibilidade das palavras. Palavras evocam coisas, mas quando se entra no campo onde as palavras não alcançam, não existem mais coisas nítidas e bem definidas: existe apenas uma vaga noção de sentimentos, emoções e pensamentos.
A partir daí você deixa de questionar os movimentos corporais e passa a apreciar apenas o efeito visual desses movimentos, deixa de pensar ou raciocinar e aí começa a fruição da dança contemporânea. E numa próxima etapa, começa a perceber sensações exprimidas pelos movimentos. O trabalho de Pina demonstrado no filme impressiona pelos dois lados: a vivacidade rítmica, rica, criativa, intensa, mas meramente visual, e as recorrentes sensações de angústia e vazio.
Essas sensações estariam relacionadas com o objeto central da alma humana, segundo Pina, que é a eterna busca, o desejo. Objetivos que movem o ser humano nada mais são que uma camuflagem para justificar e direcionar um insaciável estado de desejo, profundo e permanente, que provém do vazio e resulta em eterna angústia.O filme deveria ser um documentário sobre o trabalho da aclamada e revolucionária coreógrafa Phillipine Bausch, a Pina, mas com sua morte repentina em 2009, aos precoces 68 anos, se tornou um tributo.

Dirigida por outro aclamado alemão, Wim Wenders, o filme intercala o registro de algumas importantes coreografias, com depoimentos e comentários dos integrantes da sua companhia, o Tanztheater Wuppertal. A cada depoimento, segue se uma coreografia criada pelo depoente especialmente para o filme, executada em espaços públicos de Wuppertal, cidade sede da companhia. As coreografias expressam a individualidade dos integrantes de maneira mágica, com um encanto fascinante que não cansa e surpreende a cada novo. Assim descobrimos um dos segredos de seu sucesso: cada integrante da companhia tem um potencial criativo e técnico magnífico, o que estimulava Pina a criar e produzir em conjunto com eles.
Os depoimentos são falados na língua natal de cada um. Há de todas as nacionalidades, com destaque para espanhóis, italianos, alemães, sim, mas ainda japoneses, chineses e uma brasileira, entre outros. Descobrimos para surpresa que muitos chegaram tímidos. Pessoas retraídas, incapazes de falar, mas que na dança cresceram e se expandiram de forma intensa e gigantesca. Compreende-se ainda mais da forma de trabalho de Pina, na maioria das vezes absolutamente lacônica, mas sempre estimulante. Lua, pediu ela a um candidato, e lua ele dançou. Não era a figuração da lua obviamente, mas o sentimento de lua que deveria dançar.

O efeito tridimensional poderia ser dispensado na maioria das cenas, mas é inquestionável que em muitas delas traz mais vida. E vida, a intensidade da vida, é justamente a essência do filme. Filmado a dez metros de distância, vemos a expressão da dança no corpo de bailarinos. Filmado a dois metros de distância, vemos a expressão da dança fluindo pelo corpo de cada bailarino. E filmado a vinte centímetros de distância, vemos a expressão da dança fluindo pela boca, olhos, testa e dentes do bailarino.
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Compreende-se finalmente que a dança ocorre na alma daquela pessoa. Não é possível a dança sem antes a encarnação do sentimento. Pina relata sobre Café Müller, onde a coreografia é toda executada de olhos fechados. Mesmo de olhos fechados, somente dirigir o olhar cego para baixo ou para cima, por exemplo, no momento adequado, atingia a sensação interna correta para o correto bailar externo.
Com a ausência de Pina no Tanztheater, o filme serve muito como uma peça de divulgação. Uma companhia de altíssima qualidade e com até 20 anos de casa, está órfã, em busca de um novo diretor. Não chega a ser especialmente citado Agua, seu último grande trabalho, totalmente inspirado na sua passagem pelo Brasil, mas Caetano Veloso, seu interlocutor no país está lá na forma de Leãozinho, coreografado por um dos principais bailarinos do corpo.
São duas horas de filme que passam com uma leveza supreendente. A pungência bauschiana é pesada, densa, expressionistamente alemã. Mas o entremeio com esquetes dos bailarinos, tão lúdicas, são brincadeiras de criança executadas com um virtuosismo de precisão alemã, sobre uma variedade de músicas, da MPB até temas eletrônicos. Logo na primeira cena você diz: ih, é dança contemporânea. Mas ao final, sai sabendo apreciar um pouco mais o gênero. Uma verdadeira aula. Com Pina Bausch."
Texto: Nelson Doy, eleito por mim como crítico de cinema oficial deste blog, um paulista-carioca-já-abaianado retado!
Imagens: www.imdb.com
22 de fev. de 2012
Rebobinando - Revisitando a Matrix... e a natureza humana
Paz, amor, companheirismo, verdade e o propósito de cada um na vida. Temas absolutamente universais são abordados nessa obra definitiva: Matrix, que além dos três filmes (na verdade um só dividido em três partes), conta também com a animação Animatrix e games. Acabei de saber por uma amiga de origem japonesa da existência de quadrinhos nipônicos dos anos 1930, que serviram de ponto de partida para os geniais irmãos Wachowski, criadores da saga. Ela vai conseguir uma cópia para mim!
Deixando de lado as questões de bastidores, tão fascinantes quanto o próprio conteúdo, quero mergulhar, como tantos já fizeram em suas análises, no que foi dito nas linhas e entrelinhas da obra, que, na minha opinião, traz um paradigma transversal a todo conteúdo: a vida é uma questão de escolha e as escolhas têm, cada uma, um custo.
Os dois primeiros volumes versam mais sobre como o fato do ser humano se conhecer muda completamente sua perspectiva de vida e esse ser humano pode virar, literalmente, outra pessoa. O Oráculo aponta uma placa na parede de sua cozinha em latim que diz "conhece a ti mesmo". Em uma nova visita, Neo olha para essa placa pela segunda vez e percebe que ele "passou a ser" o Escolhido, porque ele decidiu se conhecer. Ele poderia ter decidido o contrário afinal...
No último volume, Revolutions, o confronto final entre Neo e o agente Smith traz um diálogo que dispensa explicações. Um pré-esclarecimento: Neo é uma espécie de anomalia sistêmica da própria Matrix e, portanto, parte integrante dela. Na conversa, enquanto Smith fala sempre no tom de "já ganhou", como aconteceu nos embates dele com as cinco versões anteriores de Neo, ironiza a determinação e persistência do adversário, questionando se a sua motivação seria paz, verdade, liberdade, amor... O programa Smith não conseguia entender aquela equação sem sentido. "Por que continua lutando se você sabe que vai perder?" Neo responde: "Porque é a minha escolha".
Além disso, depois de sua conversa com o tão exato e objetivo Arquiteto, um dos criadores da Matrix, Neo entende que não havia um Escolhido verdadeiramente. Tudo fazia parte do "show" da Matrix, tudo estava previsto no roteiro. Com o perdão do trocadilho, mais motivo para desmotivá-lo.
Entretanto, foi essa a grande sacada da personagem de Keanu Reeves: a vida é uma sucessão de escolhas e uma interminável sequência de perdas e ganhos. Por que desistir no meio da luta? Sempre existe o risco de perder, como deduz-se sobre o que poderia ter acontecido com as outras cinco versões dele. Então ele decide lutar pela sua escolha, porque é a sua escolha. A vida só tem sentido se fizermos escolhas e pagarmos o preço por elas.
O Arquiteto explica que as outras versões não foram tão bem construídas quanto Neo porque não tinham um componente que desequilibra uma equação matemática: o amor, sentimento que naturalmente ele se refere com ar de desdém.
Em outro momento o Oráculo esclarece didaticamente que a falha foi não permitir aos outros Neos terem opções. Resumindo: se você precisa convencer alguém de algo, conceda-lhe o poder da escolha. Só assim o ser humano se sente inteiro e realmente HUMANO. Amar, embora pareça parte integrante do ser humano, por vezes, consciente ou inconsientemente, decidimos não amar. Neo entregou-se a esse fascinante sentimento por Trinity.
Palavras, apenas palavras
Reflexões acessórias transcorrem por toda a obra. O encontro na estação de trem entre Neo e a família indiana (tinha que ser essa etnia!) é de uma beleza surpreendente. O programa Rama-Kandra espera que o trem o conduza ao traficante de informação Meronvíngio para pedir pela vida de sua filha, Sati, resultado da união com a sua
esposa, um outro programa, Kamala. Como todo programa inútil ou ultrapassado deve ser deletado, por amor, ele pretende salvar a sua filha. Neo, incrédulo, diz:
- É que eu nunca...
- ...ouviu um programa falar de amor?, completa o pai.
- Mas é uma emoção humana...
- Não, é apenas uma palavra. O que importa é a conexão que a palavra carrega. Vejo que está amando...- Mais sobressalto de Neo! - Pode me dizer o que faria para manter essa conexão?, dispara Rama.
- Qualquer coisa.
- Então talvez esteja aqui por um motivo não tão diferente do meu.
Mais adiante Rama explica que a sua filinha será deixada aos cuidados do Oráculo, pois não é possível ficar com eles. E Neo não entende como ele encara tão tranquilamente essa separação.
- É o meu carma, esclarece o programa.
- Você acredita em carma?, questiona Neo, mais uma vez surpreso.
- Carma é só uma palavra. Tenho o meu propósito na vida. Tenho a minha esposa e linda filha e muita gratidão por tudo isso, completou Rama com um sorriso tranquilo e suave no rosto.
Ao mesmo tempo, o status das palavras é elevado quando Trinity está nos seus últimos minutos de vida. É a segunda vez que ela morre e é definitiva. A primeira, dentro da Matrix, Neo faz-lhe uma ressuscitação cardíaca, depois de retirar a bala de seu corpo. As suas últimas palavras foram "Sinto muito". "E quando eu percebi o que realmente queria dizer, completa Trinity, já era tarde. Você me deu uma segunda chance e agora quero dizer o que realmente importa: eu o amo tanto e estou muito grata por tudo que vivi com você".
Para tudo na vida, sempre há um caminho do meio... Eu ESCOLHO esse caminho!
Imagens: www.imdb.com
19 de nov. de 2011
Soco no estômago, falta de identidade e um novo fã
Cheguei em casa sedenta pelo meu teclado. Precisava escrever esse texto, custasse o que custasse. É que o cineasta espanhol Pedro Almodóvar costuma me arrebatar (eu e meio mundo! rsrsr...). Mas "A pele que habito" me pareceu uma superlativização do jeito Almodóvar de ser. Não nas já tão tradicionais "cores de Almodóvar", esteticamente falando, que quase sempre servem para "carregar" as cores das paixões, que são sua marca nas películas. Essas se mantêm idênticas e talvez até mais sóbrias.
O superlativo vem da mudança na abordagem sobre as perversões, paixões, comportamentos contraditórios e dicotômicos dos seres humanos: o mergulho é muito profundo, mas permeado por uma sutileza que tem o mesmo efeito de um soco no estômago - como descreveu um amigo, o escritor Goulart Gomes - e a discrição de um envenenamento por cicuta.
A crítica fala de um Almodóvar mais sombrio que de costume. Sem dúvida. Ele parece que está disposto a aperfeiçoar seu método sempre infalível de nos tirar da zona de conforto. Em "A pele que habito", ele vasculha (e evoca) aspectos sombrios da humanidade com maestria. Aspectos sombrios de todos nós - e que ninguém tente fugir da raia! Estamos retratados ali.
Devo pontuar que diante do que senti, discordo do meu outro amigo, o professor Alberto Freire, que aponta uma falta de identidade dessa película com a obra de Almodóvar. "Cris, gostei muito, mas não é Almodóvar. Mas precisamos debater. Então, vai ver o filme amanhã", apelou na véspera do feriado, durante o bate-papo pós-trabalho no Isopor Cultural. Não só discordo, como acho exatamente o contrário, como vocês puderam ver acima. Mas devo a Beto a dica de aproveitar as comemorações republicanas me permitindo enebriar com essa obra.
Enebriar parece a vocês um verbo superlativizante demais para classificar meu estado de espírito após um simples filme? Talvez... Mas admito não ser a pessoa certa para avaliar essa situação. Tenho que confessar que entrei na sala de projeção com olhos, ouvidos e o senso crítico muito aguçados, pois tinha travado uma ótima conversa de quase duas horas com meu amigo Aldir, companheiro de sessão. Pra lá de inteligente, culto e com um vasto conhecimento em vários segmentos, nesse aparentemente inofensivo colóquio, ele me fez realizar grandes exercícios de desconstrução de paradigmas. Será que isso explica o meu estado que perdura até agora (momento de fechamento dessa edição)?
Essa resposta, só terei na sexta-feira da próxima semana, quando será possível fazer a roda de debate no Isopor Cultural. Enquanto isso, se você leu esse texto, viu o filme e quer participar dessa discussão, pode postar aqui as suas impressões. Eu quero saber tudo que você pensa.
Vale dizer que meu amigo Aldir afirmou horas antes do filme "ser o único dentre seus amigos que não gosta de Almodóvar". Revelou a proposta de revisitar outras películas do espanhol com novo olhar, modelado por essa experiência sem igual de "A pele que habito". Saiu do cinema, quem sabe, um novo fã...
Imagens: Imdb.com
12 de out. de 2011
Cinema quântico
Enquanto o elevador panorâmico de alta velocidade sobe, Jack se prosta ao fundo do veículo, em uma clara demonstração dos pensamentos que o atormentavam. Sua expressão facial e postura envergada denunciavam um misto de culpa, tristeza, arrependimento e dores de uma infância de abusos e opressão familiar.
Essa não é a primeira sequência, nem o clímax ou muito menos o desfecho do filme "A árvore da vida", de Terrence Malick, mas foi a que deixou uma marca indelével em minha mente. Como Melancolia, de Lars Von Trier - outro excelente drama psicológico em cartaz nos cinemas - o tempo e espaço são completamente subjetivos. E como a configuração de sentido depende desses dois eixos e se dá no olhar do observador, vejo nessas duas obras uma tendência que pode vir a se massificar mesmo: a física quântica. No popular: poderíamos dizer que tudo fica ao gosto do freguês.
A subjetividade em seu volume máximo não é uma novidade para o mundo das artes ou qualquer outra forma de expressão. Menos inovador ainda para os estudiosos da psi (freudianos, lacanianos e, pra mim, principalmente, junguianos). Essas duas obras, entretanto mexem tanto conosco, sentados confortavelmente nas cadeiras, que houve quem levantasse no meio do filme, pois não teve paciência - costumamos não ter paciência de olhar pra dentro de nós mesmos.
Malick "abusa" (no bom, ou melhor, ótimo sentido) do ritmo natural e "grita" bem alto pra o homem moderno, antenado, conectado, hiper-sociabilizado, dinâmico, veloz: A VIDA TEM SEU PRÓPRIO RITMO. NÃO TENTE ATROPELÁ-LA OU ELA LHE ATROPELA! Digo que "grita" porque o narrador silencioso da trama é a própria natureza com seu ritmo leeeeennnnto, majestoso e inquestionável.
Em Melancolia, Von Trier também "berra" para ver se acorda esse homem moderno tão ocupado com sua sociabilidade. A pergunta é: afinal, quem é normal? Com uma alta carga surrealista e simbólica, tal como Malick, ele propõe com maestria que nos libertemos das formas e padrões e que enxerguemos as pessoas em sua essência. Uma verdadeira declaração de amor universal. Uma verdadeira declaração de amor ao natural. Afinal, o homem é também parte da natureza.
Talvez você esteja se perguntando: será que essas foram realmente as ideias dos cineastas? Será que eles compartilham das atuais linhas de pensamento sobre quântica que elevam a consciência do observador ao status de criador definitivo? Não faço a menor ideia. E não importa. Esse é o meu olhar: único, quântico, inquietante, transformador, transmutador.
Escolhi (e guardei dentro de mim como um tesouso) mais uma sequência de "A Árvore da vida": Jack, personagem visceralmente encarnado por Sean Penn, desce no elevador e numa praia (imaginária ou real, não importa) revê e/ ou reconcilia-se com cada membro da sua família entre outras pessoas que passaram por sua vida. Pessoas que foram reais, mas que, na psique, tornam-se personagens de um enredo que nós próprios criamos, cada um a seu tempo e espaço, como lhe convier e puder.
Esse foi o salto quântico de Jack: decidiu reacriar o filme da sua vida com um novo enredo e seguir em frente. Afinal a vida precisa seguir em frente. E você, já escolheu a SUA sequência de filme preferida com o seu "olhar" quântico?
Imagens: www.imdb.com
19 de mar. de 2011
Brutalidade e ternura no Velho Oeste*
Os irmãos Cohen levaram muito a sério a responsabilidade de refazer Bravura Indômita (True Grit - Irmãos Cohen), o clássico faroeste que consagrou o ícone John Wayne ao trazê-lo numa espécie de autocaricatura, na qual quebrou seu estereótipo de durão e somou grande dose de humanidade.

O filme trata da garota Mattie Ross, que contrata o ex-xerife (ou no caso atual um marshall) mais durão da praça para perseguir o assassino do seu pai. O marshall caolho, Rooster Cogburn, é personificado por um Jeff Bridges bastante impressionante. Junta-se a eles um agente californiano interpretado por um fantasticamente irreconhecível Matt Damon.
Pouco a pouco, o trio vai entrando em território indígena, ou seja, rumo ao perigoso desconhecido, e seus personagens vão deixando a caricatura e começam a se tornar mais humanos, rumo ao perigoso desconhecido de cada alma, com vidas marcadas pelo amargor e decepção. Assim também, as situações, engraçadas do início, vão se tornando cada vez mais assustadoras.

Após vários e cômicos entreveros, a dupla compreende finalmente que a caçada está fria e, para o amargor e decepção da garota, decidem desistir. Mas, eis que, de repente, tudo muda. Ao longo do filme, vamos percebendo que o nojento, violento e beberrão Cogburn é na verdade um homem nobre e terno. A presença progressiva da neve à medida que se encerra o outono e se avança a terras altas, além das grandes paisagens inóspitas, deixa claro o destino cinzento e solitário que aguardará a personagem central, exposta a tamanha violência tão cedo na vida.
Uma crítica apontou que a versão dos Cohen, mais brutal, é muito mais fiel ao livro (True Grit – Charles Portis) que o filme original. A mistura do cômico com o violento é perfeita para os Cohen. Temos ainda a tradicional galeria de tipos histriônicos, trechos de aspecto onírico e o sempre presente tema da infantilidade norte-americana, que, para a dupla de diretores, está relacionada à teimosia e estupidez (stubborness, o nosso “partir para a ignorância”).

Curiosamente, a personagem central, a determinada e ao mesmo tempo pedante garota Mattie Ross, de 14 anos (que não se cansa de oferecer bons advogados a todos, numa sátira à sociedade americana moderna), interpretada por Haille Stainfield, justamente se caracteriza pela precocidade, mas numa inversão apenas aparente do tema. Ela, antes de todos, é a maior personificação desse comportamento teimoso e estúpido.
Assim, a crítica vêm aclamando os irmãos Cohen por terem abandonado, madura e respeitosamente, seu cinismo nesta película, e eu discordo disso profundamente. Ao glorificar esses três personagens teimosos e estúpidos, o grau de cinismo dos diretores atinge uma profundidade inédita, porque ele não está infantilmente explícito. Quando aplaudimos e saímos do cinema satisfeitos com o brio heróico dos personagens, somos exatamente a piada dos Cohen. Ao aprovar o comportamento, assumimos nossa posição.

O faroeste norte-americano já passou por diversas fases, sempre tentando adequar um tema clássico às mudanças da sociedade. Dos filmes de cavalaria do pós-guerra, onde o inimigo era o índio, passando pelo faroeste sentimental, depois o psicológico, sendo provavelmente a mais recente tentativa Brokeback Mountain, o cowboy gay.
True Grit vem da fase mais sentimental e humana, e gira em torno da figura do lone ranger, o cowboy solitário e sem patrão, que vaga pelo imenso oeste onde a ordem não é institucionalizada. Outro clássico desse gênero, mas bem mais “bangue bangue“ é Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, John Sturgess, 1960, com Steve McQueen, Yul Brynner, James Coburn e Charles Bronson!...), a história dos sete pistoleiros que se reúnem para defender agricultores familiares dos ataques dos latifundiários.

Curiosamente, tanto a figura do lone ranger como o filme Sete Homens têm uma inspiração direta na mitologia do cinema japonês, se Quentin Tarantino acha que esse diálogo é coisa nova. O lone ranger está ligado à figura do rônin, o samurai que teve sua casa feudal destruída e é obrigado a perambular sozinho pelo país, sem patrão. E Sete Homens é uma adaptação da obra Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai, de Akira Kurosawa, 1954, com Toshiro Mifune, o “John Wayne japonês”).
Texto de Nelson Doy Jr., publicitário, mora no Rio de Janeiro e é o crítico de cinema "oficial" deste humilde blog.
Imagens: www.imdb.com

O filme trata da garota Mattie Ross, que contrata o ex-xerife (ou no caso atual um marshall) mais durão da praça para perseguir o assassino do seu pai. O marshall caolho, Rooster Cogburn, é personificado por um Jeff Bridges bastante impressionante. Junta-se a eles um agente californiano interpretado por um fantasticamente irreconhecível Matt Damon.
Pouco a pouco, o trio vai entrando em território indígena, ou seja, rumo ao perigoso desconhecido, e seus personagens vão deixando a caricatura e começam a se tornar mais humanos, rumo ao perigoso desconhecido de cada alma, com vidas marcadas pelo amargor e decepção. Assim também, as situações, engraçadas do início, vão se tornando cada vez mais assustadoras.

Após vários e cômicos entreveros, a dupla compreende finalmente que a caçada está fria e, para o amargor e decepção da garota, decidem desistir. Mas, eis que, de repente, tudo muda. Ao longo do filme, vamos percebendo que o nojento, violento e beberrão Cogburn é na verdade um homem nobre e terno. A presença progressiva da neve à medida que se encerra o outono e se avança a terras altas, além das grandes paisagens inóspitas, deixa claro o destino cinzento e solitário que aguardará a personagem central, exposta a tamanha violência tão cedo na vida.
Uma crítica apontou que a versão dos Cohen, mais brutal, é muito mais fiel ao livro (True Grit – Charles Portis) que o filme original. A mistura do cômico com o violento é perfeita para os Cohen. Temos ainda a tradicional galeria de tipos histriônicos, trechos de aspecto onírico e o sempre presente tema da infantilidade norte-americana, que, para a dupla de diretores, está relacionada à teimosia e estupidez (stubborness, o nosso “partir para a ignorância”).

Curiosamente, a personagem central, a determinada e ao mesmo tempo pedante garota Mattie Ross, de 14 anos (que não se cansa de oferecer bons advogados a todos, numa sátira à sociedade americana moderna), interpretada por Haille Stainfield, justamente se caracteriza pela precocidade, mas numa inversão apenas aparente do tema. Ela, antes de todos, é a maior personificação desse comportamento teimoso e estúpido.
Assim, a crítica vêm aclamando os irmãos Cohen por terem abandonado, madura e respeitosamente, seu cinismo nesta película, e eu discordo disso profundamente. Ao glorificar esses três personagens teimosos e estúpidos, o grau de cinismo dos diretores atinge uma profundidade inédita, porque ele não está infantilmente explícito. Quando aplaudimos e saímos do cinema satisfeitos com o brio heróico dos personagens, somos exatamente a piada dos Cohen. Ao aprovar o comportamento, assumimos nossa posição.

O faroeste norte-americano já passou por diversas fases, sempre tentando adequar um tema clássico às mudanças da sociedade. Dos filmes de cavalaria do pós-guerra, onde o inimigo era o índio, passando pelo faroeste sentimental, depois o psicológico, sendo provavelmente a mais recente tentativa Brokeback Mountain, o cowboy gay.
True Grit vem da fase mais sentimental e humana, e gira em torno da figura do lone ranger, o cowboy solitário e sem patrão, que vaga pelo imenso oeste onde a ordem não é institucionalizada. Outro clássico desse gênero, mas bem mais “bangue bangue“ é Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, John Sturgess, 1960, com Steve McQueen, Yul Brynner, James Coburn e Charles Bronson!...), a história dos sete pistoleiros que se reúnem para defender agricultores familiares dos ataques dos latifundiários.

Curiosamente, tanto a figura do lone ranger como o filme Sete Homens têm uma inspiração direta na mitologia do cinema japonês, se Quentin Tarantino acha que esse diálogo é coisa nova. O lone ranger está ligado à figura do rônin, o samurai que teve sua casa feudal destruída e é obrigado a perambular sozinho pelo país, sem patrão. E Sete Homens é uma adaptação da obra Os Sete Samurais (Shichinin no Samurai, de Akira Kurosawa, 1954, com Toshiro Mifune, o “John Wayne japonês”).
Texto de Nelson Doy Jr., publicitário, mora no Rio de Janeiro e é o crítico de cinema "oficial" deste humilde blog.
Imagens: www.imdb.com
23 de fev. de 2011
Cinematografando: Oscar entre reis e cisnes?*
Para você que está lendo essa blogagem, um aviso: não deu para publicar antes esses textos. Como o Oscar é amanhã, decidi postar as duas críticas: O Discurso do rei e Cisne negro. Para quem curte assistir o Oscar (eu estou fora há alguns anos), ainda dá tempo ver ambos na telona até a premiação.
O Discurso do Rei (Tom Hooper)
All hell’s breaking loose na Casa Real britânica. O respeitado rei George V está para morrer, seu herdeiro direto é um irresponsável playboy prestes a desposar uma norte-americana duas vezes divorciada, o comunismo russo floresce prometendo derrubar monarquias, a grande esperança europeia contra seu avanço é Hitler (!!!), e a última salvação britânica que deverá ser o símbolo da unidade nacional durante a Segunda Guerra Mundial é um hesitante príncipe gago... Com a figura real modernamente reduzida à função de meros atores e radialistas, com seus discursos inspiradores dirigidos à nação de aquém e além mares, a inabilidade da fala praticamente inutilizaria um pretendente ao trono.
E mesmo assim, o filme consegue criar uma agradabilíssima bolha de amenidade neste cenário desesperador.

O Discurso do Rei vai buscar a mais curiosa relação do futuro rei George VI com seu terapeuta de fala, Lionel Rogue. Seu roteiro ignora solene e objetivamente toda a grandiosidade dessa época histórica, que apenas escutamos passar como conversas de corredores e salas de espera. Quando o príncipe entra no consultório de Rogue, é como se uma passagem secreta se abrisse para fugir momentaneamente do seu hermético universo de responsabilidades, protocolos e angústias reais. Com seus métodos pouco ortodoxos para a época, e boa dose de personalidade, Rogue vai gerando e ganhando tanto a desconfiança como a confiança do príncipe, até tornar-se seu chap, seu “chapa”, amigo, camarada (ops, isso não!) e confidente, algo impensável até hoje.
Uma produção de orçamento absurdamente baixo, bem típica dos irmãos Weinstein, torna uma diversão extra observar como o desenhista de produção se esmera para driblar a falta de verba. Os planos são fechados, com poucos objetos de época muito bem valorizados em cada plano, locações semi prontas e a boa sacada para a cena que seria a mais cara, o momento da coroação, na Westminster Abbey. Assim, toda sua atenção se concentra em bons diálogos, entregues por bons atores.

Por isso mesmo, saem daqui dois fortes indicados ao Oscar de coadjuvante. Colin Firth, ótimo como o príncipe e rei, é apoiado pelos grandes Geoffrey Rush, o terapeuta, e pelo charme de Helena Bonham Carter, sua esposa Elizabeth. Com um andamento lento, o roteiro dá tempo para que o trio de ouro construa personagens muito peculiares e envolventes, estabelecendo uma contínua tensão cênica mesmo nos mais longos hiatos silenciosos.
O filme é benevolente ao rei, tanto talvez quanto seu povo o tenha sido na época, em apoio a um monarca correto e que claramente lutava contra a gagueira para enlevar os ingleses durante essa época de nuvens negras. Assim, faz um bem danado até para a família real atual ao humanizar as frias e distantes figuras reais. Uma excelente peça de Royal Marketing.
Cisne Negro (Darren Aronofsky)
Cisne Negro é um razoavelmente ajambrado filme de terror que tem surtos esquizofrênicos, cada vez menos frequentes, em que se acredita drama psicológico. Recoberto com o glacê de uma boa direção de arte, iludiu parte da crítica que o aclamou conceitual e filme de arte. Menos.
Vale muito a vista por vários motivos: consegue ser arrepiante do pelo aos ossos, é intenso, tem um roteiro bem construído e é um alívio assistir Natalie Portman e ver que ela agora, finalmente, parece que vai alçar seu voo.

Como se poderia esperar, a protagonista Nina, integrante perfeccionista de um importante corpo de balé, recria a tragédia do Lago dos Cisnes. Mantida engaiolada como um Cisne Branco por sua Rothbart-Mãe, tem a grande chance de ser erguida rainha pelo diretor artístico Thomas - Siegfried. Mas a indecisão deste pela sensualidade negrocísnica de Lily (do hebraico Lilith, pesquisem na internet) acaba a desesperando. Incapaz de equilibrar os extremos da Castidade e da Lascívia dentro de si (uma metáfora arquetípica possível da dualidade Cisne Branco e Cisne Negro), Nina termina como Freud poderia explicar, completamente histérica.
Cisne Negro quase atinge sua proposta enunciada logo no começo de ser uma versão visceral, mas erra a mão pela falta de auto-confiança, exatamente o problema que o diretor artístico atribui à protagonista Nina. Na tentativa desesperada de garantir a visceralização do espectador, exagera na dose do terror, com edição rebuscada, camera nervosa, sustos pré-fabricados, cenas de horror escatológico, sanguinhos baratos e over-acting de Natalie Portman fazendo cara de choro, e não precisava disso tudo.
A sensação que dá é que toda a equipe se imbuiu da meta e começou a arrancar olhos e intestinos, gritando ”Arghh! Sou visceral! Sou visceral!”. Outra falha patente é a falta de um posicionamento bem definido. Quer atingir tanto a garotas adolescentes (com a temática escolar da santinha pura contra a galinha da classe) quanto adultos, tanto o sexo feminino quanto o masculino. Assim, vira um pastiche disforme que o enfraquece muito como obra, dilui a poesia da ideia.

O interessante de sua trama é criar diversas camadas onde realidade se confunde com a imaginação e a ficção. E o bem sacado dessa ideia é estendê-la ao próprio casting (seleção de atrizes). Como apontado em diversas críticas, é absolutamente maquiavélico (e arrepiante) ver a ascendente Natalie contracenar com a decadente Winona Rider, ela própria uma Natalie Portman em seu tempo, o modelo juvenil-pueril feito de caras e bocas, que jamais avançou além disso.
Já Portman, elogiada por George Lucas por ser muito técnica, mesmo uma filha superprotegida, jamais pareceu viver de fato seus personagens, faltando-lhe justamente sentir e se soltar para ganhar expressão corporal. O filme parece assim, um psicodrama construído para amadurecê-la. Ainda é uma atriz de caras e bocas, mas elas estão mais densas do que nunca e conseguem assim dar credibilidade a uma história simplória e de final risível.
A direção de arte é bem urdida e, esta sim, muito conceitual. A luz é crua e a câmera nervosa persegue a protagonista e a mantém encurralada por um super close claustrofóbico. O uso obrigatório do branco e do negro em cena é consistentemente aplicado, mas não chega a ser original. Vem direto do Morte em Veneza, de Visconti, onde os dois tons disputam centímetro por centímetro o espaço cenográfico em cada plano e representam, um e outro, ora Vida, ora Morte. Contrapõe-se a começar a alvura judaico-novaiorquina de Nina à morenice matreiro-californiana de Lily. Há ainda a insistência perturbadora dos espelhos, onipresentes, indício da dualidade da alma, multifacetados, fragmentados, deformantes, multiplicantes ou estilhaçados, “refletindo” o momento interior da bailarina.
O fato é que nos tempos atuais, repleto de filmes com roteiros industrializados, de progressão mecânica e grande ênfase em pirotecnias, ficamos anormalmente encantados com histórias de estrutura clássica e direção de arte bem pensada.
* textos de Nelson Doy Jr., publicitário, residente no Rio de Janeiro e colunista oficial de cinema deste blog.
O Discurso do Rei (Tom Hooper)
All hell’s breaking loose na Casa Real britânica. O respeitado rei George V está para morrer, seu herdeiro direto é um irresponsável playboy prestes a desposar uma norte-americana duas vezes divorciada, o comunismo russo floresce prometendo derrubar monarquias, a grande esperança europeia contra seu avanço é Hitler (!!!), e a última salvação britânica que deverá ser o símbolo da unidade nacional durante a Segunda Guerra Mundial é um hesitante príncipe gago... Com a figura real modernamente reduzida à função de meros atores e radialistas, com seus discursos inspiradores dirigidos à nação de aquém e além mares, a inabilidade da fala praticamente inutilizaria um pretendente ao trono.
E mesmo assim, o filme consegue criar uma agradabilíssima bolha de amenidade neste cenário desesperador.

O Discurso do Rei vai buscar a mais curiosa relação do futuro rei George VI com seu terapeuta de fala, Lionel Rogue. Seu roteiro ignora solene e objetivamente toda a grandiosidade dessa época histórica, que apenas escutamos passar como conversas de corredores e salas de espera. Quando o príncipe entra no consultório de Rogue, é como se uma passagem secreta se abrisse para fugir momentaneamente do seu hermético universo de responsabilidades, protocolos e angústias reais. Com seus métodos pouco ortodoxos para a época, e boa dose de personalidade, Rogue vai gerando e ganhando tanto a desconfiança como a confiança do príncipe, até tornar-se seu chap, seu “chapa”, amigo, camarada (ops, isso não!) e confidente, algo impensável até hoje.
Uma produção de orçamento absurdamente baixo, bem típica dos irmãos Weinstein, torna uma diversão extra observar como o desenhista de produção se esmera para driblar a falta de verba. Os planos são fechados, com poucos objetos de época muito bem valorizados em cada plano, locações semi prontas e a boa sacada para a cena que seria a mais cara, o momento da coroação, na Westminster Abbey. Assim, toda sua atenção se concentra em bons diálogos, entregues por bons atores.

Por isso mesmo, saem daqui dois fortes indicados ao Oscar de coadjuvante. Colin Firth, ótimo como o príncipe e rei, é apoiado pelos grandes Geoffrey Rush, o terapeuta, e pelo charme de Helena Bonham Carter, sua esposa Elizabeth. Com um andamento lento, o roteiro dá tempo para que o trio de ouro construa personagens muito peculiares e envolventes, estabelecendo uma contínua tensão cênica mesmo nos mais longos hiatos silenciosos.
O filme é benevolente ao rei, tanto talvez quanto seu povo o tenha sido na época, em apoio a um monarca correto e que claramente lutava contra a gagueira para enlevar os ingleses durante essa época de nuvens negras. Assim, faz um bem danado até para a família real atual ao humanizar as frias e distantes figuras reais. Uma excelente peça de Royal Marketing.
Cisne Negro (Darren Aronofsky)
Cisne Negro é um razoavelmente ajambrado filme de terror que tem surtos esquizofrênicos, cada vez menos frequentes, em que se acredita drama psicológico. Recoberto com o glacê de uma boa direção de arte, iludiu parte da crítica que o aclamou conceitual e filme de arte. Menos.
Vale muito a vista por vários motivos: consegue ser arrepiante do pelo aos ossos, é intenso, tem um roteiro bem construído e é um alívio assistir Natalie Portman e ver que ela agora, finalmente, parece que vai alçar seu voo.

Como se poderia esperar, a protagonista Nina, integrante perfeccionista de um importante corpo de balé, recria a tragédia do Lago dos Cisnes. Mantida engaiolada como um Cisne Branco por sua Rothbart-Mãe, tem a grande chance de ser erguida rainha pelo diretor artístico Thomas - Siegfried. Mas a indecisão deste pela sensualidade negrocísnica de Lily (do hebraico Lilith, pesquisem na internet) acaba a desesperando. Incapaz de equilibrar os extremos da Castidade e da Lascívia dentro de si (uma metáfora arquetípica possível da dualidade Cisne Branco e Cisne Negro), Nina termina como Freud poderia explicar, completamente histérica.
Cisne Negro quase atinge sua proposta enunciada logo no começo de ser uma versão visceral, mas erra a mão pela falta de auto-confiança, exatamente o problema que o diretor artístico atribui à protagonista Nina. Na tentativa desesperada de garantir a visceralização do espectador, exagera na dose do terror, com edição rebuscada, camera nervosa, sustos pré-fabricados, cenas de horror escatológico, sanguinhos baratos e over-acting de Natalie Portman fazendo cara de choro, e não precisava disso tudo.
A sensação que dá é que toda a equipe se imbuiu da meta e começou a arrancar olhos e intestinos, gritando ”Arghh! Sou visceral! Sou visceral!”. Outra falha patente é a falta de um posicionamento bem definido. Quer atingir tanto a garotas adolescentes (com a temática escolar da santinha pura contra a galinha da classe) quanto adultos, tanto o sexo feminino quanto o masculino. Assim, vira um pastiche disforme que o enfraquece muito como obra, dilui a poesia da ideia.

O interessante de sua trama é criar diversas camadas onde realidade se confunde com a imaginação e a ficção. E o bem sacado dessa ideia é estendê-la ao próprio casting (seleção de atrizes). Como apontado em diversas críticas, é absolutamente maquiavélico (e arrepiante) ver a ascendente Natalie contracenar com a decadente Winona Rider, ela própria uma Natalie Portman em seu tempo, o modelo juvenil-pueril feito de caras e bocas, que jamais avançou além disso.
Já Portman, elogiada por George Lucas por ser muito técnica, mesmo uma filha superprotegida, jamais pareceu viver de fato seus personagens, faltando-lhe justamente sentir e se soltar para ganhar expressão corporal. O filme parece assim, um psicodrama construído para amadurecê-la. Ainda é uma atriz de caras e bocas, mas elas estão mais densas do que nunca e conseguem assim dar credibilidade a uma história simplória e de final risível.
A direção de arte é bem urdida e, esta sim, muito conceitual. A luz é crua e a câmera nervosa persegue a protagonista e a mantém encurralada por um super close claustrofóbico. O uso obrigatório do branco e do negro em cena é consistentemente aplicado, mas não chega a ser original. Vem direto do Morte em Veneza, de Visconti, onde os dois tons disputam centímetro por centímetro o espaço cenográfico em cada plano e representam, um e outro, ora Vida, ora Morte. Contrapõe-se a começar a alvura judaico-novaiorquina de Nina à morenice matreiro-californiana de Lily. Há ainda a insistência perturbadora dos espelhos, onipresentes, indício da dualidade da alma, multifacetados, fragmentados, deformantes, multiplicantes ou estilhaçados, “refletindo” o momento interior da bailarina.
O fato é que nos tempos atuais, repleto de filmes com roteiros industrializados, de progressão mecânica e grande ênfase em pirotecnias, ficamos anormalmente encantados com histórias de estrutura clássica e direção de arte bem pensada.
* textos de Nelson Doy Jr., publicitário, residente no Rio de Janeiro e colunista oficial de cinema deste blog.
12 de fev. de 2011
Cinematrografando: Um carinhoso libelo feminino em tempos selvagens

Ingrid Guimarães à beira de um ataque de nervos. Em De Pernas Pro Ar (Roberto Santucci, BRA, 2010), a atriz interpreta Alice, uma jovem executiva, ambiciosa, bem casada e prestes a conquistar uma tão sonhada promoção.
De repente, seu pequeno país das maravilhas egocêntrico desmorona de forma espetacular. Num só dia, perde o emprego e o marido, cansado de ser relegado a um segundo plano - que está na verdade a uma distância de quase vinte planos atrás do profissional. Finalmente, é obrigada a reconhecer que sua vida sentimental e sexual estava uma merda.

Neste fundo de poço, conhece Marcela, exótica criatura dona de um sex shop, que vai se tornar sua única amiga e confidente e vai acompanhá-la numa divertidíssima aventura de redescobrimento e humanização.
A dupla de personagens não podia funcionar melhor tanto quanto a dupla de atrizes. Com Marcela - interpretada até comedidamente pela over congênita Maria Paula - Alice vai se libertando das amarras e preconceitos do establishment, descobre o prazer do sexo e da vida e o valor das pessoas que a cercam, ganhando força para dar a volta por cima.

Entusiasmada, assume como sócia de Marcela e aplica todo o seu empreendedorismo e conhecimento profissional para transformar o funesto negócio numa hilária e inesperada mega empresa.
Assim, de forma absolutamente despretensiosa e fluente, o filme desmistifica uma série de tabus femininos modernos, inclusive esse de que as mulheres são obrigadas a se encaixar num modelo de sucesso profissional yuppie egoísta corporativo morador da Barra. E assim, com toda essa leveza comediante, faz levitar um baita peso dos ombros femininos sem nem percebermos.

Curioso observar que os pecados de Alice até há pouco eram atribuídos aos homens: workaholics dessensibilizados, distantes da família. Há uma clara e declarada inversão de gêneros no filme. Antes, executiva era o homem e arquiteto era a esposa. Sinal dos tempos.
Faz pensar: será que ocorre uma “masculinização” da mulher quando entra no competitivo ambiente profissional corporativo? Ou será que na verdade o que ocorre é uma desumanização geral que atinge a homens e mulheres nesse ambiente inumano? Bingo!

Não deixa de ser o mesmo tema do também nacional "Se Eu Fosse Você", este bem mais sofisticado em termos de produção, direção e atuação do que o aqui modesto, simplório até, mas eficiente, De Pernas Pro Ar.
É um desses filmes que tem gostinho de DVD, para ver no sofá, com pipoca e sem medo. Temas até então “adultos” são apresentados com um naiveté tão pueril e sincero que retira qualquer demônio grudado.


Impossível não se enternecer por Ingrid Guimarães nesse papel. O filme é um trampolim sob medida para ela, engraçada, sexy e doce. Mas só vale se homens e mulheres, os dois, aprenderem a lição. Nessa época de pretensiosos Oscars e Cisnes Negros... arre! Saia leve. Termina com beijo, por que não?
* Nelson Doy Jr. é publicitário, mora no Rio de Janeiro, tem cinema nas veias e é o maior "cabeção"!
12 de dez. de 2010
Cinematografando: A Rede Social*

Baseado no livro Bilionários Por Acaso, de Ben Mezrich, o filme A Rede Social (David Fincher e Aaron Sorkin, USA, 2010) conta uma interessante história com diversos níveis de compreensão, relatando a pequena epopéia vivida pelo fundador do fenômeno Facebook, Mark Zuckerberg. Cria assim o anti-herói contemporâneo definitivo, suplantando Bill Gates.

Apesar da tentativa de se mostrar imparcial, retratando as ambigüidades da personalidade de Zuckerberg, o ponto-de-vista é nitidamente favorável. Quando não consegue ser favorável por mérito do próprio, o faz com o demérito dos outros. Enquanto isso nos revela o fascinante e perigoso mundo do e-empreendedorismo norte-americano, repleto de cartadas e movimentos agressivos.
A trajetória de Zuckerberg tem muito a ver com as histórias de Bill Gates (leia Hard Drive – Desejo de Vencer, sua biografia não autorizada e certamente inspiração para o storytelling do filme), Steve Jobs (fundador da Apple, demitido pelos capitalistas aos quais abriu participação e depois aclamado de volta ao comando) e do próprio falastrão Sean Parker, fundador falido do polêmico Napster – o compartilhador pirata de arquivos de música - que grudou em Zuckerberg e é seu atual sócio.

O roteiro, maravilhosamente bem costurado por Aaron Sorkin, trata na verdade de dois grandes temas. Relacionamentos e privacidade. No que se refere a relacionamentos, a ironia mais óbvia. Apesar do Facebook ser concebido para permitir que as pessoas se encontrem, o tempo todo os personagens do filme passam por grandes desencontros. Escolhem parceiros errados e erram nas parcerias acertadas.
Zuckerberg, mostrado como um nerd socialmente inepto, tenta “programatizar” as relações por via virtual, mas falha no contato pessoal. De modo geral, todos os personagens sofrem de um horrível egocentrismo, que pauta muito das relações modernas, e, no filme, parece justamente ser o motivo dos problemas de relacionamento. A onda do Twitter é provavelmente o maior exemplo desse culto egocêntrico ao EU. Definitivamente, tecnologia ajuda, mas não resolve. Em última instância, o sucesso de relacionamentos não depende de quantidade, mas de qualidade. O segredo está antes de tudo dentro de nós mesmos, eis a mensagem.

Privacidade é outro tema crucial para o Facebook, que declarou publicamente o fim da “Era da Privacidade”. O filme mostra como somos todos públicos hoje em dia. O enredo todo gira em torno desse publicity que caracteriza as relações humanas contemporâneas.
Pessoas se expõem publicamente no Facebook, revelando até se estão ou não namorando, se envolvem em enormes movimentos de fofocas e boatos que se espalham como fogo em palha (ou como post em blog...), assumindo alternadamente o papel de alvos ou algozes, e salienta ainda como todos podem ser facilmente difamados publicamente em troca de interesses financeiros ou simplesmente decepções sentimentais.

Vivemos em uma era de publicity no qual o Facebook é apenas mais uma ferramenta, que teria mesmo que surgir em algum momento para apoiar essa tendência. A exposição pública pode ser controlada e planejada ou ser feita à força, de maneira negativa, incontrolada ou inconsequente.
A sessão do filme foi curiosamente antecedida por uma ação de comunicação bem interessante realizada pelo portal de notícias iG nos cinemas, que informa na telona suas principais manchetes daquele dia.

E a primeira delas era justamente sobre a prisão de Julian Assange, o fundador do mais polêmico de todos os empreendimentos da internet até agora, o WikiLeaks, que publica vazamentos de informação sigilosa de governos e grandes corporações. Ele está sendo acusado (e difamado) por dois supostos casos de estupro, que nega.
Destaque para a versátil trilha sonora, que consegue mesclar bandas indies atuais como Super Furry Animals e White Stripes intercaladas por mainstreams das antigas como Beatles, Bob Marley e outros nem tanto como The Cramps.
* Texto: Nelson Doy Jr., publicitário, amigo querido que sempre empresta sua mente privilegiada para a seção Cinematografando, deste meu quantinho no cyberespaço. E que curte os espaços reais do Lado B quando vem à soterópolis.
Imagens: www.imdb.com
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