Crédito desta foto: eu mesma inspiradíssima...

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3 de fev. de 2013

Cinematografando URGENTE: O Som ao Redor


Meu amigo e crítico oficial desse blog, Nelson Doy, mandou-me esse texto abaixo para publicar. Farei isso com certeza. Mas tenho que confessar que achei ainda mais fascinante que o texto o comentário que ele escreveu na lista do nosso grupo após enviá-lo: "Só acrescentando, acho que O Som ao Redor é uma grande experiência a ser vivida, vivenciada, o legal é passar por essa experiência; é um filme muito sensorial e mental: esse é o barato dele. O barato não é falar dele, mas experienciá-lo. E se não assistir no cinema, tem que assistir em casa com um som bom, que preencha o ambiente. É isso. Vivam essa experiência. Passem por esse filme."

Se vocês já estão seduzidos como eu, então corram para o cinema (uma obra assim, é bem melhor na telona, não é?), pois a película já está saindo de cartaz, mas vi que a Sala de Arte vai reexibir. Entendeu o porquê do URGENTE no título? rsrsr... Então esse texto poderia estar na seção Cinematrografando ou Rebobinando. Tudo depende da sua velocidade em comprar o ingresso do cine ou ter que ir a uma locadora (rezando para que a distribuição seja boa e chegue à uma loja perto de você, claro!) Confiram (enfim!), o texto de Nelsão, cujo primeiro título eu amei também "Aqueles e Aquilos que se nos Impõem os Seus Limites" (mas que ele resolveu mudar... Fazer o quê? rsrsr...)


"Um Peckinpah Malemolente

Já quase saindo de cartaz, fui conferir essa nova sensação do cinema nacional que é O Som ao Redor. Simples e extraordinário como um pequeno e bem resolvido tratado sociológico brasileiro e no uso da linguagem cinematográfica, é mais um fruto da geração pernambucana que já produziu, entre outros, Amarelo Manga, de Claudio Assis.

O filme retrata o cotidiano de um condomínio classe média em alguma rua, em algum bairro, que poderia ser em qualquer capital brasileira, Rio, São Paulo, BH, Salvador, Porto, você nomeia, mas que afinal ocorre, muito apropriadamente, no Recife, como se verá. Tudo começa a mudar com a chegada de seguranças que se oferecem para prestar serviço de vigilância na rua.

Nada se pode falar de O Som ao Redor sem estragar o prazer de desmontar e remontar esse pequeno quebra-cabeças, mas às vezes uma análise ajuda a curtir melhor. Você decide se continua a ler. O mais importante a dizer é que, sendo uma construção sensorial e psicológica, é fundamental passar pela experiência de assisti-lo. Se não no cinema, talvez até melhor em casa (tem tudo a ver assistir na sala ou até no quarto), mas então em home-theater com um som que preencha todo o ambiente. A sonoplastia é um ator importante no filme.

O Som ao Redor é um declarado filme de terror que de tão leve e agradável, doce, muitos quase não se dão conta disso. Em uma época em que se usa misturar gêneros, vai bem esse, misturado com um cinema tipo “MPB”, desses mesmos que retratam o cotidiano de um condomínio classe média. Não é por acaso que comece com uma reprodução marcante de O Iluminado, a cena da menina no velocípede, percorrendo os corredores do hotel mal assombrado.

O fantasma no caso, não é a violência urbana, mas a sensação dela, a possibilidade dela, que paira no ar ao redor como se o risco da invasão estivesse o tempo todo presente na vida do brasileiro. O filme todo aparenta uma naturalidade fluida e despretensiosa, mas não se engane. O roteiro é ardilosamente arquitetado e irá trabalhar essa sensação iminente ao longo de toda sua estrutura. O tempo todo ocorrem cenas ou fatos que terminam em decepção, desconcerto, que agridem de uma forma ou outra nosso senso e rapidamente desaparecem, antes mesmo de machucar. E a violência, esta nunca ocorre de fato, até o momento final. Como um lento Sam Peckinpah, diretor que criou a linguagem da tensão e do nervosismo no cinema, antecipando em quase duas décadas a tal da síndrome do pânico.

O filme trata basicamente de territorialismo, dos limites, e como as pessoas brasileiras lidam com ele. Há o espaço / limite do quarto, do apartamento, do prédio, da rua. Há o limite aéreo, do som, e o limite da imagem privativa, aos quais temos ou teríamos direito. Há o limite da privacidade do telefone celular, há o limite do horário e como se invadem todos esses limites. E há finalmente o seu limite, pessoal, como espectador. O som ao redor, que preenche insistente o silêncio da película, oprime e espreme teu silêncio interior, obrigando-o a se encolher um pouco mais adentro de si mesmo, às vezes num volume tal que te obriga a resistir contra sua invasão. Nossos limites são definidos por aqueles e “aquilos” que se nos impõem. Há até o limite imposto pelos tubarões aos banhistas nas praias da cidade... Dizem que o limite da sua liberdade vai até onde começa o limite da liberdade do outro. Mas o que dizer de um país onde o limite do outro é relativo, negociável, dubitável, confrontável?

Há na história ainda o limite do amor, do relacionamento entre duas pessoas, vivido pelos personagens líderes, e como esse casal se diferencia de todo o resto por respeitar esses limites. Um casal que se ama, abre e funde seus limites pessoais, mas respeita outros, negociados na relação. No filme, as únicas vítimas e heróis são aqueles que respeitam os limites dos outros.

O Som segue nessa construção, cada vez mais tensa, até que no final, encontra a origem dessa forma brasileira de lidar com os limites territoriais, e conecta tudo. Imperdível. Nem que seja só para compreender aquele tipo que para o carro na rua com o alto-falante tocando funk no volume máximo, só para estragar a cena bucólica de nós conversando tranquilos sobre um filme bom que pintou por aí. Uma bela aula de cinema."

12 de fev. de 2011

Cinematrografando: Um carinhoso libelo feminino em tempos selvagens




Ingrid Guimarães à beira de um ataque de nervos. Em De Pernas Pro Ar (Roberto Santucci, BRA, 2010), a atriz interpreta Alice, uma jovem executiva, ambiciosa, bem casada e prestes a conquistar uma tão sonhada promoção.

De repente, seu pequeno país das maravilhas egocêntrico desmorona de forma espetacular. Num só dia, perde o emprego e o marido, cansado de ser relegado a um segundo plano - que está na verdade a uma distância de quase vinte planos atrás do profissional. Finalmente, é obrigada a reconhecer que sua vida sentimental e sexual estava uma merda.



Neste fundo de poço, conhece Marcela, exótica criatura dona de um sex shop, que vai se tornar sua única amiga e confidente e vai acompanhá-la numa divertidíssima aventura de redescobrimento e humanização.

A dupla de personagens não podia funcionar melhor tanto quanto a dupla de atrizes. Com Marcela - interpretada até comedidamente pela over congênita Maria Paula - Alice vai se libertando das amarras e preconceitos do establishment, descobre o prazer do sexo e da vida e o valor das pessoas que a cercam, ganhando força para dar a volta por cima.



Entusiasmada, assume como sócia de Marcela e aplica todo o seu empreendedorismo e conhecimento profissional para transformar o funesto negócio numa hilária e inesperada mega empresa.

Assim, de forma absolutamente despretensiosa e fluente, o filme desmistifica uma série de tabus femininos modernos, inclusive esse de que as mulheres são obrigadas a se encaixar num modelo de sucesso profissional yuppie egoísta corporativo morador da Barra. E assim, com toda essa leveza comediante, faz levitar um baita peso dos ombros femininos sem nem percebermos.



Curioso observar que os pecados de Alice até há pouco eram atribuídos aos homens: workaholics dessensibilizados, distantes da família. Há uma clara e declarada inversão de gêneros no filme. Antes, executiva era o homem e arquiteto era a esposa. Sinal dos tempos.

Faz pensar: será que ocorre uma “masculinização” da mulher quando entra no competitivo ambiente profissional corporativo? Ou será que na verdade o que ocorre é uma desumanização geral que atinge a homens e mulheres nesse ambiente inumano? Bingo!



Não deixa de ser o mesmo tema do também nacional "Se Eu Fosse Você", este bem mais sofisticado em termos de produção, direção e atuação do que o aqui modesto, simplório até, mas eficiente, De Pernas Pro Ar.

É um desses filmes que tem gostinho de DVD, para ver no sofá, com pipoca e sem medo. Temas até então “adultos” são apresentados com um naiveté tão pueril e sincero que retira qualquer demônio grudado.






Impossível não se enternecer por Ingrid Guimarães nesse papel. O filme é um trampolim sob medida para ela, engraçada, sexy e doce. Mas só vale se homens e mulheres, os dois, aprenderem a lição. Nessa época de pretensiosos Oscars e Cisnes Negros... arre! Saia leve. Termina com beijo, por que não?


* Nelson Doy Jr. é publicitário, mora no Rio de Janeiro, tem cinema nas veias e é o maior "cabeção"!

15 de ago. de 2010

Cinematografando: Cinco pessoas que você encontra no céu





Essa a minha estreia no Cinematrografando, pois Nelson Doy é o titular da cadeira. Mas devo alertá-los que minha abordagem nesse texto vai por outra linha. Sou mais de transcender o cinema, de usá-lo como suporte para reflexões, do que falar propriamente da Sétima Arte em seus aspectos técnicos, o que é feito com maestria pelo meu amigo. Esse é da série Rebobinando, pra ver em casa, no sofazão, com uma boa companhia e poder trocar ideias no final.



"As Cinco Pessoas que Você Encontra no Céu conta a história de Eddie, o mecânico de um parque de diversões que morre no dia de seu aniversário de 83 anos, tentando salvar a vida de uma garotinha. Imerso numa rotina de trabalho e solidão, ele passou a vida se considerando um fracassado. Ao acordar no céu, encontra cinco pessoas - algumas conhecidas, outras que ele nunca viu. Cada uma dessas pessoas revê com Eddie uma passagem de sua vida, resolvendo antigos mistérios, dissolvendo antigas mágoas, revivendo antigos amores. A cada experiência, fica mais clara a grande importância dele na vida de milhares de pessoas sem que se desse conta, provando que cada vida está ligada a outra de formas que, muitas vezes, não entendemos."

Esse recorte de sinopses "oficiais" do filme apenas atraem um pouco a atenção de uma possível audiência, embora não atraia multidões. Mas multidões poderiam ver (e provavelmente se sentirem empáticas com) essa obra, baseada no livro homônimo de Mitch Albom, um escritor de best sellers que foi responsável também pelo roteiro desse filme de 2004, produzido para TV.



É lógico que há verdadeiras obras de arte sobre o ato de viver e tudo que o justifica, com citações filosóficas em grande número e da mais alta qualidade. Mas nunca encontrei um filme tão claro sobre o tema; tão simples, que mesmo as pessoas que não costumam se aprofundar nessas questões existenciais podem perfeitamente fluí-lo. É um filme tecnicamente muito bem construído, mas, como eu disse, não quero entrar nessa seara. Mas posso garantir que tem aí um espetáculo a ser visto.



Quem me conhece bastante, sabe o quando temas existenciais são item 1 da minha lista de prioridades. Por isso, já tive oportunidade de ler e assistir obras das mais populares às mais complexas que abordem os segredos da vida. Entretanto As Cinco pessoas... passou, desde ontem, a ter uma cadeira cativa nos meus estudos vida à fora. Especialmente no meu atual momento, em que estou na berlinda em várias instâncias de minha vida, essa obra veio a calhar.

Sabe quando você está diante de alguém ou situação que lhe diz tudo que você precisa para seguir em frente? Eis o efeito que esse filme teve sobre mim. Ah, ele também ensina sobre isso: o saber ouvir e/ou ver o que está diante de nós com o coração aberto para o aprendizado e entender que aquilo que é, para nós, o óbvio, nem sempre é o que parece. Pode ser algo muito distante do que a nossa restrita visão de mundo se acostumou a enxergar.



Generosidade, cumplicidade, perdão, misericórdia, amor, confiança, resignação, compartilhamento, compreensão, gratidão... Esses são alguns dos nobres sentimentos colocados em pauta na película. Resumindo: assistam, porque nada do que eu diga será suficiente para dar conta da riqueza dessa obra. Podem dar uma olhadinha no trailer legendado no Youtube.

Fotos: IMDB.com

28 de mar. de 2010

Cinematografando: Ego Romeo & Psiche Juliet (Ilha do Medo)*




Acorrentado a seus próprios traumas, o agente federal Teddy Daniels é designado a investigar o desaparecimento de uma interna do manicômio penitenciário na ilha de Shutter, litoral de Boston. No decorrer da trama, percorremos com ele os assustadores meandros da loucura e desvendamos uma bela e trágica história de amor.


Uma vasta biblioteca de imagens arquetípicas indica que o tema do filme não é policialesco e sim psiquiátrico. A começar pela ilha, um rochedo isolado da sociedade por um mar revolto, acometida de violentas intempéries. Simboliza a mente do louco, enrijecida e isolada por um mar de pensamentos confusos e turbulentos, seus surtos psicóticos e a própria psicanálise, único e frágil acesso ao interior dessa mente, exatamente como a periclitante balsa que leva e traz seus visitantes.



Assim também, as diversas alas do manicômio e os “lugares” da ilha - como a mata e o penhasco com suas cavernas - são organizados como a mente freudiana, com superego, consciente, inconsciente e subconsciente. Ilha do Medo é, na verdade, uma jornada de Ego (o protagonista Daniels) por entre a estrutura da mente freudiana, vivendo literalmente o confronto de Eros (amor) e Tanatos (morte), força motriz de todas as emoções.

Apesar da idade, Leonardo Di Caprio parece meio que uma criança interpretando um personagem adulto e o filme é uma colagem de referências cinematográficas, desde a trama até o visual, decepcionantemente vulgares e lugar-comum para o habitual realismo crú de Scorcese. De filmes de terror e o expressionismo alemão ao cine noir, sempre com cenas pré-fabricadas como querendo te amedrontar. Uma série de "defeitos" que tornam o filme mecânico e parecem banalizar a produção. Mas tudo isso se explica, e faz muito sentido, à medida que compreendemos como se construiu aquele enredo.



Muito tristemente, o auge do filme é estuprado por um longo surto de explicacionite aguda, o mal típico de toda produção norte-americana, com mais de uma dezena de planos nitidamente inseridos após a edição do filme. São aquelas em que os coadjuvantes são convocados a posteriori para gravar falas que tentam esclarecer o que está acontecendo, tudo por exigência dos produtores e muito a contragosto do diretor e roteirista, que desejam preservar a integridade poética da obra. O caráter didático quebra, miseravelmente, o sentido catártico da cena.

Assim, por falta de sutileza psicológica, Ilha do Medo perde a chance de se colocar entre as grandes histórias do amor trágico, que tem na sua galeria clássicos como Romeu e Julieta, Lolita e o pós moderno Asas do Desejo. Poderia ser o Romeu e Julieta dos tempos modernos, que se passa no purgatório das almas perdidas, sob a ótica da violência, o tema primal de toda a obra cinematográfica de Scorcese. Que ótimo seria talvez ver este filme realizado por Stanley Kubrick, que dedicou sua vida a filmar a loucura em todos os seus tempos e sentidos.


Mas a cena final, com a decisão de Daniels, e que culmina no plano do farol apagado ao pôr-do-sol, com toda sua carga simbólica, é ótima e recupera sozinha toda desgraça anterior. Assista, traga o quebra-cabeças para casa e monte você mesmo a versão "director’s cut". Mas cuidado: o filme é tenso demais e te larga na rua mais pesado que um rochedo isolado da sociedade por um mar revolto. Você sai do cinema desejando a companhia de outras pessoas, mesmo não conseguindo articular conversa alguma.




* por Nelson Doy Jr., que é publicitário, mora no Rio, mas volta e meia curte o Lado B de Salvador, quase sempre ciceroneado por essa blogueira que vos fala. Além de ser brilhante nos seus textos (e me presentear com obras suas exclusivas), sempre salva-me nas horas mais difíceis de blogueira.

fotos: www.imdb.com

20 de dez. de 2009

Animação da Pixar emociona*





Apesar do arrasador desempenho nas bilheterias norte-americanas, uma das obras-primas da Pixar, WALL-E, foi um retumbante fracasso no Brasil, ficando bem atrás das animações da concorrente Dreamworks. O Oscar de Animação concedido em 2009 clama por revisão. E vale a pena, mesmo em DVD.

WALL-E é provavelmente o último vestígio de vida inteligente numa Terra devastada. Mas WALL-E não é uma criatura orgânica. É um pequeno robô que passa seus séculos cumprindo religiosamente a função à qual foi destinado: empilhar fardos de lixo num infindável aterro no qual se transformou o planeta e cuja diversão é coletar objetos curiosos e cuidar da sua baratinha de estimação.

Até que um dia, uma nave pousa e deixa EVE, um robô-sonda altamente avançado, objetivo e com impressionante capacidade destrutiva (não se tem dúvida que é umA robô...). A partir daí começa uma inesperada aventura romântica de fundo ecológico. EVE, descobrimos, é a pomba de Noé, que até hoje é retratada com um ramo no bico como símbolo da esperança e paz.

São praticamente dois filmes. A primeira metade - que mostra a solidão de WALL-E e seus primeiros contatos com EVE - é totalmente muda e de um lirismo muito comovente. Quem mais hoje em dia é capaz de arrancar lágrimas de adultos com uma animação muda, senão a parceria Disney/Pixar? Comprova a máxima do cinema, que um bom roteiro não deve se apoiar no diálogo para se compreender a situação.




A segunda metade perde na poesia, mas ganha muito em ação e diversão. É uma sátira muito inventiva à letargia à qual o tecno-consumismo submete o norte-americano, mas que peca pela falta de objetividade. O roteiro tenta aqui, desajeitadamente, colocar seres humanos como protagonistas, quando a essência da história é o conflito entre robôs com "alma" e "coração" contra um sistema automatizado, desumano e autoritário.

Enfim, WALL-E é um dos melhores filmes de animação já feitos, combinando o melhor da poesia Disney com a técnica mais apurada em animação da Pixar. Obrigatório. Não é um filme de entressafra como me pareceu no lançamento (salvo pelo fato de não contar com a supervisão de história de Brad Bird, que trabalhou nos anteriores Os Incríveis e Ratatouille, e isso explica o roteiro "quase lá").

Mas a dica é assistir a primeira metade, que vai até a cena em que a nave parte levando EVE, e depois dar um "pause", reabastecer a pipoca, enxugar as lágrimas e se preparar para a segunda parte, que tem um ritmo completamente diferente. Casais apaixonados: é garantia de um bom fim de noite. Se a menina não se render a este, é porque nem coração de lata ela tem.



*Nelson Doy Jr. é publicitário e mora no Rio. Essa crítica é da série REBOBINANDO - filmes que ele não viu na época do lançamento e depois resolveu dar uma olhada em DVD. E isso é bem Lado B. "E me surpreendi... Tem muita gente que procura dicas de DVD. Principalmente este acho que vale, porque não chegou a explodir nas bilheterias aqui no Brasil, mas depois ganhou o Oscar!"



Foto: www.imdb.com

15 de dez. de 2009

Estreia do Cinematografando com Woody Allen*

Esse é o dèbut da nova seção do Lado B. Quando meus brilhantes amigos críticos de cinema (oficiais ou não) escreverem algo sobre uma obra da Sétima Arte, vão escrever para o Cinematografando. Bem, a palavra não é exatamente um neologismo porque, em tese, existe. Mas ousadamente criei um novo sentido para ela: algo como usar a linguagem escrita para abordar cinema. A primeira crítica é de um amigo para lá de querido (do qual eu sou fã de carterinha), Nelson Doy Jr. Ah, e podem cinematografar o texto dele com seus comentários, ok?




Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works), de Woody Allen

Boris, um velho judeu separado, maníaco e rabugento, candidato frustrado ao Nobel de Física, tem sua vida metódica abalada quando aceita abrigar Evan Rachel Wood - como a dumb blond mais lindinha deste ano nos cinemas. Fugida de uma casa de protestantes radicais numa cidadezinha da tradicionalista Mississipi, Melodie (Evan Rachel) confessa seu amor pelo coroa, levando a uma série de acasos e reações que culminam no próprio... final do filme.

Allen mantém seu interesse sobre a transitoriedade das relações dentro desse enorme mar de acasos, sempre encafifado com a imprevisibilidade das paixões frente a qualquer tentativa lógica. Note-se que tem uma diferença monumental entre a humildade resignada do título original Whatever Works (qualquer coisa que funcione) e a otimista tradução Tudo Pode Dar Certo. Depois de muitos anos, aquela paixão inicial se resume a qualquer coisa que possa dar certo (para manter o relacionamento), ensina Boris.

Mais ou menos, o filme é o retorno anual de Allen ao seu público (e estilo de humor) originador, o judeu novaiorquino. Veio da Europa e fez um resumo do que viu na volta pra comunidade, sem faltar uma impagável malhação ao protestantismo. Muito de bem com a vida, sem compromissos. O aspecto de esquete caseiro é reforçado pelo estilo sitcômico do protagonista Larry David, que faz Curb Your Enthusiasm na TV, que fica flagrantemente deslocado no cinema.



*Nelson Doy Jr. é publicitário, mora no Rio, mas volta e meia curte o Lado B de Salvador, quase sempre ciceroneado por essa blogueira que vos fala.

Foto: www.imdb.com