Crédito desta foto: eu mesma inspiradíssima...

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18 de mai. de 2013

Bahia, ao lado de São Paulo, abriga o In-Edit Brasil


O circuito Sala de Arte cresce cada vez mais em meu conceito: já está sediando, ao lado do Palacete das Artes, o IN-EDIT BRASIL - 5º Festival Internacional do Documentário Musical. Bahia, ao lado de São Paulo, abriga o evento que tem versões na Espanha, Chile e Alemanha. Se ligue, está rolando até 23 de maio! Vê se não perde essa, hein? ;-)





"Inaugurado em 2009, o IN-EDIT BRASIL é o primeiro festival dedicado exclusivamente ao gênero do documentário musical no país.
Com o objetivo de difundir obras inéditas e resgatar de títulos históricos, o Festival vem estimulando a produção e a circulação de filmes importantes e colaborando para o desenvolvimento do mercado audiovisual no Brasil.
A produção brasileira no gênero cresce ano a ano em quantidade e qualidade, constituindo um acervo de grande valor. O IN-EDIT BRASIL democratiza o acesso a este acervo e investe na formação de público, com sessões e atividades gratuitas.
Com tudo isso, a programação do Festival promove um intercâmbio entre as culturas musical e cinematográfica no país, estimulando encontros, gerando parcerias e provocando uma contaminação criativa entre as duas linguagens.
Este ano, a edição nacional acontece em São Paulo de 3 a 12 maio, ocupando 5 salas da cidade. Em seguida, uma mostra reduzida acontece em Salvador, de 17 a 23 do mesmo mês."

Texto aspeado e imagem: www.in-edit-brasil.com/2013/

4 de mai. de 2013

Beau moment, merveilleux...

Dá orgulho ter o circuito Sala de Arte na cidade. É garantia de programação de qualidade, que prima pelo cuidado e a seletividade. Marcelo Sá é meu ídolo, pois não é fácil manter um empreendimento desses há 13 anos, em uma cidade com as características da soterópolis. 




Desde sexta, até o dia 9, está rolando o Festival Varilux de Cinema Francês nas salas do Museu e da Ufba. Um luxo! Amanhã, estarei em maratona, porque é bem complicado, pra não dizer impossível, eu ir para essas bandas da cidade ao longo da semana. Vou conferir no Museu (a melhor sala do muuuuuunnnndo, amooooo...): 13h - Pedalando com Molière
15h - Os sabores do palácio
17h - Camille Claudel (uau! Rodin vai tremer no túmulo...)
19h - Uma dama em Paris; 20h50 - Renoir. 

Confira no link a programação completa de todo o festival.

Imagem do filme Os sabores do palácio (www.imdb.com)

15 de nov. de 2012

O santo guerreiro Glauber

"Guerreiro"é um espetáculo de circo baseado na vida e obra do genial cieneasta baiano Glauber Rocha. A produção mostra o jeito de Glauber filmar, de pensar o Brasil, de lidar com a ditadura e de não ter medo de assumir posições polêmicas.

 
Em cartaz desde outubro, o espetáculo acontece sempre às 20 horas, no Circo Picolino, em Pituaçu, em Salvador, até 7 de dezembro. Mas bem que dá pra aproveitar o clima relax do pós-feriado para assisti-lo nesta sexta ou sábado (16 e 17), não é? Os ingressos custam R$ 20 (inteira).

Ah, tem patrocínio da Petrobras (orgulho...) e depois parte para temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo de janeiro a fevereiro de 2013, viu, pessoal?

Com criação, roteiro e direção de Anselmo Serrat e elenco formado por 30 artistas, essa é a segunda montagem do espetáculo, que já foi apresentado pela companhia há 12 anos. Traz efeitos tecnológicos cênicos de imagem, luz e som, tornando o "Guerreiro" uma apresentação de multi-linguagens, portanto, uma referência à estética adotada por Glauber Rocha em suas obras.

Vale ressaltar o repetório musical, com destaque para as belíssimas canções "Fita Amarela", de Noel Rosa e "Bachiana nº 5", Heitor Villa Lobos (confira em matéria da TV Bahia, afiliada da Rede Globo em Salvador).

O Circo Picolino é uma ONG com quase 30 anos de vida, que luta pela preservação das artes circences em Salvador e tem sede permanente na capital baiana, onde são ministradas várias atividades educativas e formativas, além de ser palco para agitos multiculturais.



Confira demais canções do repertório:

"O Circo Cheio de Gente" (Amadeu Alves e Dalton)
"Jenipapo" (Amadeu Alves)
"Matador de Cangaceiro" (Sérgio Ricardo)
"O Circo e o Cinema" (Amadeu Alves e Dalton)
"Cosme Damião Chegou"  
"Santo Guerreiro"
"Jazz Samba, Samba Jazz" (improviso)
"Rio, Cuba, Paris, Conquista" (Amadeu Alves e Dalton)
"Brother" (Jorge Benjor)
"Quadrante" (Amadeu Alves)
"Se Entrega Corisco" (Sérgio Ricardo)

SERVIÇO:

Guerreiro
Local: Circo Picolino (Av. Otávio Mangabeira – Pituaçu)
Telefone: (71) 3363-4069
Dias: 16, 17, 23 e 24 de novembro e 7 de dezembro
Preço: R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia)

29 de abr. de 2012

Cinematografando a dança com Pina


Esta crítica foi enviada para mim por Nelson Doy on time, ou seja, enquanto o filme ainda estava em cartaz. Mas, por vários motivos, acebei não publicando. Desculpa aí, Nelsão, e desculpa aí amigos do Lado B.

"Pina, de Win Wenders (2011). Nunca entendi muito a dança contemporânea, mas Pina Bausch em pessoa me explica que a dança começa exatamente aí mesmo, onde terminam as palavras, ou a possibilidade das palavras. Palavras evocam coisas, mas quando se entra no campo onde as palavras não alcançam, não existem mais coisas nítidas e bem definidas: existe apenas uma vaga noção de sentimentos, emoções e pensamentos.


A partir daí você deixa de questionar os movimentos corporais e passa a apreciar apenas o efeito visual desses movimentos, deixa de pensar ou raciocinar e aí começa a fruição da dança contemporânea. E numa próxima etapa, começa a perceber sensações exprimidas pelos movimentos. O trabalho de Pina demonstrado no filme impressiona pelos dois lados: a vivacidade rítmica, rica, criativa, intensa, mas meramente visual, e as recorrentes sensações de angústia e vazio.

Essas sensações estariam relacionadas com o objeto central da alma humana, segundo Pina, que é a eterna busca, o desejo. Objetivos que movem o ser humano nada mais são que uma camuflagem para justificar e direcionar um insaciável estado de desejo, profundo e permanente, que provém do vazio e resulta em eterna angústia.


O filme deveria ser um documentário sobre o trabalho da aclamada e revolucionária coreógrafa Phillipine Bausch, a Pina, mas com sua morte repentina em 2009, aos precoces 68 anos, se tornou um tributo.


Dirigida por outro aclamado alemão, Wim Wenders, o filme intercala o registro de algumas importantes coreografias, com depoimentos e comentários dos integrantes da sua companhia, o Tanztheater Wuppertal. A cada depoimento, segue se uma coreografia criada pelo depoente especialmente para o filme, executada em espaços públicos de Wuppertal, cidade sede da companhia. As coreografias expressam a individualidade dos integrantes de maneira mágica, com um encanto fascinante que não cansa e surpreende a cada novo. Assim descobrimos um dos segredos de seu sucesso: cada integrante da companhia tem um potencial criativo e técnico magnífico, o que estimulava Pina a criar e produzir em conjunto com eles.



Os depoimentos são falados na língua natal de cada um. Há de todas as nacionalidades, com destaque para espanhóis, italianos, alemães, sim, mas ainda japoneses, chineses e uma brasileira, entre outros. Descobrimos para surpresa que muitos chegaram tímidos. Pessoas retraídas, incapazes de falar, mas que na dança cresceram e se expandiram de forma intensa e gigantesca. Compreende-se ainda mais da forma de trabalho de Pina, na maioria das vezes absolutamente lacônica, mas sempre estimulante. Lua, pediu ela a um candidato, e lua ele dançou. Não era a figuração da lua obviamente, mas o sentimento de lua que deveria dançar.


O efeito tridimensional poderia ser dispensado na maioria das cenas, mas é inquestionável que em muitas delas traz mais vida. E vida, a intensidade da vida, é justamente a essência do filme. Filmado a dez metros de distância, vemos a expressão da dança no corpo de bailarinos. Filmado a dois metros de distância, vemos a expressão da dança fluindo pelo corpo de cada bailarino. E filmado a vinte centímetros de distância, vemos a expressão da dança fluindo pela boca, olhos, testa e dentes do bailarino. 





 Compreende-se finalmente que a dança ocorre na alma daquela pessoa. Não é possível a dança sem antes a encarnação do sentimento. Pina relata sobre Café Müller, onde a coreografia é toda executada de olhos fechados. Mesmo de olhos fechados, somente dirigir o olhar cego para baixo ou para cima, por exemplo, no momento adequado, atingia a sensação interna correta para o correto bailar externo.


Com a ausência de Pina no Tanztheater, o filme serve muito como uma peça de divulgação. Uma companhia de altíssima qualidade e com até 20 anos de casa, está órfã, em busca de um novo diretor. Não chega a ser especialmente citado Agua, seu último grande trabalho, totalmente inspirado na sua passagem pelo Brasil, mas Caetano Veloso, seu interlocutor no país está lá na forma de Leãozinho, coreografado por um dos principais bailarinos do corpo.

São duas horas de filme que passam com uma leveza supreendente. A pungência bauschiana é pesada, densa, expressionistamente alemã. Mas o entremeio com esquetes dos bailarinos, tão lúdicas, são brincadeiras de criança executadas com um virtuosismo de precisão alemã, sobre uma variedade de músicas, da MPB até temas eletrônicos. Logo na primeira cena você diz: ih, é dança contemporânea. Mas ao final, sai sabendo apreciar um pouco mais o gênero. Uma verdadeira aula. Com Pina Bausch."


Texto: Nelson Doy, eleito por mim como crítico de cinema oficial deste blog, um paulista-carioca-já-abaianado retado!

Imagens: www.imdb.com


 

22 de fev. de 2012

Rebobinando - Revisitando a Matrix... e a natureza humana


Paz, amor, companheirismo, verdade e o propósito de cada um na vida. Temas absolutamente universais são abordados nessa obra definitiva: Matrix, que além dos três filmes (na verdade um só dividido em três partes), conta também com a animação Animatrix e games. Acabei de saber por uma amiga de origem japonesa da existência de quadrinhos nipônicos dos anos 1930, que serviram de ponto de partida para os geniais irmãos Wachowski, criadores da saga. Ela vai conseguir uma cópia para mim!

Deixando de lado as questões de bastidores, tão fascinantes quanto o próprio conteúdo, quero mergulhar, como tantos já fizeram em suas análises, no que foi dito nas linhas e entrelinhas da obra, que, na minha opinião, traz um paradigma transversal a todo conteúdo: a vida é uma questão de escolha e as escolhas têm, cada uma, um custo.


Os dois primeiros volumes versam mais sobre como o fato do ser humano se conhecer muda completamente sua perspectiva de vida e esse ser humano pode virar, literalmente, outra pessoa. O Oráculo aponta uma placa na parede de sua cozinha em latim que diz "conhece a ti mesmo". Em uma nova visita, Neo olha para essa placa pela segunda vez e percebe que ele "passou a ser" o Escolhido, porque ele decidiu se conhecer. Ele poderia ter decidido o contrário afinal...


No último volume, Revolutions, o confronto final entre Neo e o agente Smith traz um diálogo que dispensa explicações. Um pré-esclarecimento: Neo é uma espécie de anomalia sistêmica da própria Matrix e, portanto, parte integrante dela. Na conversa, enquanto Smith fala sempre no tom de "já ganhou", como aconteceu nos embates dele com as cinco versões anteriores de Neo, ironiza a determinação e persistência do adversário, questionando se a sua motivação seria paz, verdade, liberdade, amor... O programa Smith não conseguia entender aquela equação sem sentido. "Por que continua lutando se você sabe que vai perder?" Neo responde: "Porque é a minha escolha".

Além disso, depois de sua conversa com o tão exato e objetivo Arquiteto, um dos criadores da Matrix, Neo entende que não havia um Escolhido verdadeiramente. Tudo fazia parte do "show" da Matrix, tudo estava previsto no roteiro. Com o perdão do trocadilho, mais motivo para desmotivá-lo.


Entretanto, foi essa a grande sacada da personagem de Keanu Reeves: a vida é uma sucessão de escolhas e uma interminável sequência de perdas e ganhos. Por que desistir no meio da luta? Sempre existe o risco de perder, como deduz-se sobre o que poderia ter acontecido com as outras cinco versões dele. Então ele decide lutar pela sua escolha, porque é a sua escolha. A vida só tem sentido se fizermos escolhas e pagarmos o preço por elas.

O Arquiteto explica que as outras versões não foram tão bem construídas quanto Neo porque não tinham um componente que desequilibra uma equação matemática: o amor, sentimento que naturalmente ele se refere com ar de desdém.



Em outro momento o Oráculo esclarece didaticamente que a falha foi não permitir aos outros Neos terem opções. Resumindo: se você precisa convencer alguém de algo, conceda-lhe o poder da escolha. Só assim o ser humano se sente inteiro e realmente HUMANO. Amar, embora pareça parte integrante do ser humano, por vezes, consciente ou inconsientemente, decidimos não amar. Neo entregou-se a esse fascinante sentimento por Trinity.

Palavras, apenas palavras

Reflexões acessórias transcorrem por toda a obra. O encontro na estação de trem entre Neo e a família indiana (tinha que ser essa etnia!) é de uma beleza surpreendente. O programa Rama-Kandra espera que o trem o conduza ao traficante de informação Meronvíngio para pedir pela vida de sua filha, Sati, resultado da união com a sua
esposa, um outro programa, Kamala. Como todo programa inútil ou ultrapassado deve ser deletado, por amor, ele pretende salvar a sua filha. Neo, incrédulo, diz:

- É que eu nunca...
- ...ouviu um programa falar de amor?, completa o pai.
- Mas é uma emoção humana...
- Não, é apenas uma palavra. O que importa é a conexão que a palavra carrega. Vejo que está amando...- Mais sobressalto de Neo! - Pode me dizer o que faria para manter essa conexão?, dispara Rama.
- Qualquer coisa.
- Então talvez esteja aqui por um motivo não tão diferente do meu.

Mais adiante Rama explica que a sua filinha será deixada aos cuidados do Oráculo, pois não é possível ficar com eles. E Neo não entende como ele encara tão tranquilamente essa separação.
- É o meu carma, esclarece o programa.
- Você acredita em carma?, questiona Neo, mais uma vez surpreso.
- Carma é só uma palavra. Tenho o meu propósito na vida. Tenho a minha esposa e linda filha e muita gratidão por tudo isso, completou Rama com um sorriso tranquilo e suave no rosto.

Ao mesmo tempo, o status das palavras é elevado quando Trinity está nos seus últimos minutos de vida. É a segunda vez que ela morre e é definitiva. A primeira, dentro da Matrix, Neo faz-lhe uma ressuscitação cardíaca, depois de retirar a bala de seu corpo. As suas últimas palavras foram "Sinto muito". "E quando eu percebi o que realmente queria dizer, completa Trinity, já era tarde. Você me deu uma segunda chance e agora quero dizer o que realmente importa: eu o amo tanto e estou muito grata por tudo que vivi com você".

Para tudo na vida, sempre há um caminho do meio... Eu ESCOLHO esse caminho!




Imagens: www.imdb.com

19 de nov. de 2011

Soco no estômago, falta de identidade e um novo fã




Cheguei em casa sedenta pelo meu teclado. Precisava escrever esse texto, custasse o que custasse. É que o cineasta espanhol Pedro Almodóvar costuma me arrebatar (eu e meio mundo! rsrsr...). Mas "A pele que habito" me pareceu uma superlativização do jeito Almodóvar de ser. Não nas já tão tradicionais "cores de Almodóvar", esteticamente falando, que quase sempre servem para "carregar" as cores das paixões, que são sua marca nas películas. Essas se mantêm idênticas e talvez até mais sóbrias.

O superlativo vem da mudança na abordagem sobre as perversões, paixões, comportamentos contraditórios e dicotômicos dos seres humanos: o mergulho é muito profundo, mas permeado por uma sutileza que tem o mesmo efeito de um soco no estômago - como descreveu um amigo, o escritor Goulart Gomes - e a discrição de um envenenamento por cicuta.


A crítica fala de um Almodóvar mais sombrio que de costume. Sem dúvida. Ele parece que está disposto a aperfeiçoar seu método sempre infalível de nos tirar da zona de conforto. Em "A pele que habito", ele vasculha (e evoca) aspectos sombrios da humanidade com maestria. Aspectos sombrios de todos nós - e que ninguém tente fugir da raia! Estamos retratados ali.

Devo pontuar que diante do que senti, discordo do meu outro amigo, o professor Alberto Freire, que aponta uma falta de identidade dessa película com a obra de Almodóvar. "Cris, gostei muito, mas não é Almodóvar. Mas precisamos debater. Então, vai ver o filme amanhã", apelou na véspera do feriado, durante o bate-papo pós-trabalho no Isopor Cultural. Não só discordo, como acho exatamente o contrário, como vocês puderam ver acima. Mas devo a Beto a dica de aproveitar as comemorações republicanas me permitindo enebriar com essa obra.


Enebriar parece a vocês um verbo superlativizante demais para classificar meu estado de espírito após um simples filme? Talvez... Mas admito não ser a pessoa certa para avaliar essa situação. Tenho que confessar que entrei na sala de projeção com olhos, ouvidos e o senso crítico muito aguçados, pois tinha travado uma ótima conversa de quase duas horas com meu amigo Aldir, companheiro de sessão. Pra lá de inteligente, culto e com um vasto conhecimento em vários segmentos, nesse aparentemente inofensivo colóquio, ele me fez realizar grandes exercícios de desconstrução de paradigmas. Será que isso explica o meu estado que perdura até agora (momento de fechamento dessa edição)?


Essa resposta, só terei na sexta-feira da próxima semana, quando será possível fazer a roda de debate no Isopor Cultural. Enquanto isso, se você leu esse texto, viu o filme e quer participar dessa discussão, pode postar aqui as suas impressões. Eu quero saber tudo que você pensa.

Vale dizer que meu amigo Aldir afirmou horas antes do filme "ser o único dentre seus amigos que não gosta de Almodóvar". Revelou a proposta de revisitar outras películas do espanhol com novo olhar, modelado por essa experiência sem igual de "A pele que habito". Saiu do cinema, quem sabe, um novo fã...


Imagens: Imdb.com

15 de out. de 2011

Pílulas B: vem chegando o verão...


Então é tudoaomesmotempoagora, minha gente!

Cinema na Praça

Estamos nos tornando cidade grande. Olha que bela iniciativa: o Cine Aquarius, exibição de filmes em praça pública, no loteamento Aquarius, começou a funcionar em setembro. Como parte do projeto de revitalização do espaço público, as exibições gratuitas ocorrem em um telão de 6m x 4m, sempre às sextas, 20 horas, no anfiteatro.


A Praça Aquarius teve piso e passeios recuperados, ganhou nova iluminação, mobiliário urbano, equipamentos de ginástica e ampliação do paisagismo.

Programação:

21/10 - Filme: Comer, rezar, amar
04/11 - Filme: Swiming Pool
11/11 - Filme: Avatar


E atenção para as dicas da poderosa Ilka Danusa:



Samba em Construção

Destaque do cenário musical no último verão, o canteiro de obras do samba baiano estreiou em setembro em novo local. Sempre a partir das 15h, uma vez por mês, o projeto Samba em Construção ocupa todos os espaços do Cine Teatro Solar Boa Vista, no bairro de Brotas. Além do novo espaço, nesta segunda edição, o evento traz novidades como os convidados especiais e homenagens a grandes mestres do samba. Os anfitriões continuam sendo os operários do samba Lucas do Pandeiro, a cantora Maira Lins e o grupo Menos um no Quartetto, formado pelos compositores e multi-instrumentistas Humberto Barretto, Ronaldo Nobre e Cassius Cardozo. Próxima "batida de laje" será no dia 30 de outubro - aguardem mais detalhes. Mais informações e imagens: www.sambaemconstrucao.com.br


Canto Torto

As noites de terça-feira em outubro vão oferecer uma alternativa para os amantes da música brasileira. O cantor baiano Vitor Passos – acompanhado pelo compositor Victor Longo ao violão e Paulo Giron na percussão – apresenta o projeto Canto Torto, de repertório constituído por clássicos do nosso cancioneiro (de gente como Ary Barroso, Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Chico Buarque, Caetano Veloso e Jards Macalé). Sempre às terças-feiras, no Sunshine Bar e Restaurante (Rua Guedes Cabral, 20 – Rio Vermelho, em frente a Igreja de Sant’ana). Couvert: R$ 10.

12 de out. de 2011

Cinema quântico



Enquanto o elevador panorâmico de alta velocidade sobe, Jack se prosta ao fundo do veículo, em uma clara demonstração dos pensamentos que o atormentavam. Sua expressão facial e postura envergada denunciavam um misto de culpa, tristeza, arrependimento e dores de uma infância de abusos e opressão familiar.

Essa não é a primeira sequência, nem o clímax ou muito menos o desfecho do filme "A árvore da vida", de Terrence Malick, mas foi a que deixou uma marca indelével em minha mente. Como Melancolia, de Lars Von Trier - outro excelente drama psicológico em cartaz nos cinemas - o tempo e espaço são completamente subjetivos. E como a configuração de sentido depende desses dois eixos e se dá no olhar do observador, vejo nessas duas obras uma tendência que pode vir a se massificar mesmo: a física quântica. No popular: poderíamos dizer que tudo fica ao gosto do freguês.


A subjetividade em seu volume máximo não é uma novidade para o mundo das artes ou qualquer outra forma de expressão. Menos inovador ainda para os estudiosos da psi (freudianos, lacanianos e, pra mim, principalmente, junguianos). Essas duas obras, entretanto mexem tanto conosco, sentados confortavelmente nas cadeiras, que houve quem levantasse no meio do filme, pois não teve paciência - costumamos não ter paciência de olhar pra dentro de nós mesmos.

Malick "abusa" (no bom, ou melhor, ótimo sentido) do ritmo natural e "grita" bem alto pra o homem moderno, antenado, conectado, hiper-sociabilizado, dinâmico, veloz: A VIDA TEM SEU PRÓPRIO RITMO. NÃO TENTE ATROPELÁ-LA OU ELA LHE ATROPELA! Digo que "grita" porque o narrador silencioso da trama é a própria natureza com seu ritmo leeeeennnnto, majestoso e inquestionável.


Em Melancolia, Von Trier também "berra" para ver se acorda esse homem moderno tão ocupado com sua sociabilidade. A pergunta é: afinal, quem é normal? Com uma alta carga surrealista e simbólica, tal como Malick, ele propõe com maestria que nos libertemos das formas e padrões e que enxerguemos as pessoas em sua essência. Uma verdadeira declaração de amor universal. Uma verdadeira declaração de amor ao natural. Afinal, o homem é também parte da natureza.

Talvez você esteja se perguntando: será que essas foram realmente as ideias dos cineastas? Será que eles compartilham das atuais linhas de pensamento sobre quântica que elevam a consciência do observador ao status de criador definitivo? Não faço a menor ideia. E não importa. Esse é o meu olhar: único, quântico, inquietante, transformador, transmutador.


Escolhi (e guardei dentro de mim como um tesouso) mais uma sequência de "A Árvore da vida": Jack, personagem visceralmente encarnado por Sean Penn, desce no elevador e numa praia (imaginária ou real, não importa) revê e/ ou reconcilia-se com cada membro da sua família entre outras pessoas que passaram por sua vida. Pessoas que foram reais, mas que, na psique, tornam-se personagens de um enredo que nós próprios criamos, cada um a seu tempo e espaço, como lhe convier e puder.

Esse foi o salto quântico de Jack: decidiu reacriar o filme da sua vida com um novo enredo e seguir em frente. Afinal a vida precisa seguir em frente. E você, já escolheu a SUA sequência de filme preferida com o seu "olhar" quântico?


Imagens: www.imdb.com

24 de jul. de 2011

Viagens sobre a telona




Dica da minha amiga do coração, Rosa Leiro: começa amanhã, às 14 horas, e vai até o dia 30 de julho, o VII Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual - Cine Futuro. Os locais são Teatro Castro Alves, Goethe-Institut/ICBA, Salas Walter da Silveira e Alexandre Robatto e Hotel Sol Victoria Marina. Vale a pena visitar o site Cine Futuro para saber como se inscrever e ficar por dentro da extensa e rica programação. Tem co-patrocínio da Petrobras.

O evento terá mesas redondas, diálogos, palestras, mostra retrospectiva Bernardo
Bertolucci (uau!!!), ciclo de palestras, mostras internacional de filmes, competitiva de curtas, além das especiais: Sandrine Bonnaire, Amor à Francesa, Indicados EFA 2010 e Animação Francesa.

Entre os convidados: Peter Jospeh, Sonja Heinen,Zelito Viana, Leonard Retel Hemlrich, Ivana Bentes, Ricardo Miranda, Miguel Coyula, Antoine De Baecque, Charles Tesson, André Sturm, Diego Rodríguez, Arthur Omar, François Bonenfant, François Rabaté, Gilberto Felisberto Vasconcelos, João Carlos Teixeira Gomes, Maria do Rosário Caetano e Messias Bandeira.

Texto adaptado da página do evento no Facebook

9 de jun. de 2011

Da sala de aula para o mundo*




Quilombola é o quê? A jornalista Jaqueline Barreto resolveu responder esta instigante pergunta através do documentário Ser Quilombola. O filme expõe a realidade das comunidades de São Francisco do Paraguaçu e Porteiras, localizadas nos municípios de Cachoeira e Entre Rios, respectivamente, no Recôncavo baiano. Na terça-feira, dia 6 de junho, o vídeo foi lançado na Assembléia Legislativa da Bahia para uma platéia repleta de integrantes das localidades onde o filme foi rodado. Muitos deles exibiam o nervosismo e a ansiedade pelo instante mágico de se ver na tela pela primeira vez.

Ao longo dos 27 minutos, o filme aborda os vários aspectos que configuram a afirmação identitária dos descendentes de quilombos. A produção se originou de um trabalho de conclusão do curso em jornalismo no ano de 2010, na Faculdade Social da Bahia, e o resultado ultrapassa os limites de um trabalho acadêmico. Diante da tela se sucedem depoimentos de remanescentes das comunidades, alternados com outros, de representantes da academia, como os historiadores Ubiratan Castro e João José Reis. O diálogo fílmico entre essas duas realidades é muito bem costurado pela direção segura da jovem diretora Jaqueline, que faz sua estreia como se fosse o trabalho de gente grande por trás das câmeras.

Ela revela que sua motivação para o filme nasceu do desejo de “desmitificar os estigmas do significado de ser Quilombola, que vai além dos elementos mais visíveis como ser negro, o samba de roda, o pilão e a casa de farinha”. Estes sinais, associados à referência de comunidades paradas no tempo, contribuem para reafirmar uma visão equivocada da dinâmica social e cultural, que estão presentes na realidade cotidiana.

Com muita sutileza, o documentário discute temas que configuram a identidade Quilombola. Os depoimentos, as imagens e uma edição competente, constroem reflexões sobre os laços de parentesco, a violência real e simbólica do racismo, e a complexa relação com a terra, que ultrapassa a posse do espaço físico e traz para discussão a transmissão da territorialidade como uma história de resistência étnica e cultural, numa sociedade que faz um trabalho secular de desconstrução da autoestima dos afrodescendentes.

Ao final do filme, Jaqueline Barreto consegue captar e expor na tela a força e a resistência dos Quilombolas de São Francisco do Paraguaçu e Porteiras, que reafirmam sua condição ancestral com o brado de resistência, “sou Quilombola”. O olhar firme para a câmera é como se mirassem novos tempos, uma nova escrita da história, memória e outros modos de vida, sem perder os vínculos com o passado. Após a estreia no espaço urbano, o documentário, a partir de agora, vai percorrer as comunidades remanescentes de quilombos na Bahia, para exibir o real significado e a força do que é Ser Quilombola.

Ficha Técnica:
Roteiro: Jaqueline Barreto e Mídiã Santana
Direção e Edição: Jaqueline Barreto
Produção: Deraldo Leal
Edição de imagens: Charles Del Rei e Sandro Lucena
Cinegrafistas: Edilson Lima e Paulo César

*Artigo do jornalista e doutor em cultura e sociedade (Ufba)Alberto Freire, além de um eterno encantado com as coisas belas da vida.

1 de mai. de 2011

Cinema com C




Um dos profissionais mais respeitados da cena cultural de Salvador, o jornalista Adalberto Meireles, acaba de lançar um blog sobre cinema: Ponto C de Cinema .

Fiz questão de não escrever nenhum texto aqui, porque preferi reproduzir as palavras dele - absolutamente irretocáveis - sobre ele mesmo e essa bela iniciativa. Parabéns, Adalbe!

"Jornalista e crítico de cinema, trabalhei nos jornais A TARDE e Correio e coordenei a programação das salas Walter da Silveira e Alexandre Robatto, em Salvador.

Tomo emprestado o título de um livro do diretor francês François Truffaut (1932-1984), O prazer dos olhos, como slogan desta jornada que agora proponho. Quero fruir. Provocar, perguntar e responder: por que um filme, um cartaz, uma foto, uma sequência, uma simples imagem de cinema inquieta e emociona tanto.

Nada melhor do que ter como inspiração um homem como Truffaut, um dos mais renomados cineastas franceses do pós-guerra, um teórico do cinema, do filme, da arte do filme. A arte de ver, colher e escolher as cenas. Ao prazer, então."


Texto aspeado (com formatação adaptada): Adalberto Meirelles
Imagem: Ponto C de Cinema

23 de fev. de 2011

Cinematografando: Oscar entre reis e cisnes?*

Para você que está lendo essa blogagem, um aviso: não deu para publicar antes esses textos. Como o Oscar é amanhã, decidi postar as duas críticas: O Discurso do rei e Cisne negro. Para quem curte assistir o Oscar (eu estou fora há alguns anos), ainda dá tempo ver ambos na telona até a premiação.

O Discurso do Rei (Tom Hooper)

All hell’s breaking loose na Casa Real britânica. O respeitado rei George V está para morrer, seu herdeiro direto é um irresponsável playboy prestes a desposar uma norte-americana duas vezes divorciada, o comunismo russo floresce prometendo derrubar monarquias, a grande esperança europeia contra seu avanço é Hitler (!!!), e a última salvação britânica que deverá ser o símbolo da unidade nacional durante a Segunda Guerra Mundial é um hesitante príncipe gago... Com a figura real modernamente reduzida à função de meros atores e radialistas, com seus discursos inspiradores dirigidos à nação de aquém e além mares, a inabilidade da fala praticamente inutilizaria um pretendente ao trono.

E mesmo assim, o filme consegue criar uma agradabilíssima bolha de amenidade neste cenário desesperador.



O Discurso do Rei vai buscar a mais curiosa relação do futuro rei George VI com seu terapeuta de fala, Lionel Rogue. Seu roteiro ignora solene e objetivamente toda a grandiosidade dessa época histórica, que apenas escutamos passar como conversas de corredores e salas de espera. Quando o príncipe entra no consultório de Rogue, é como se uma passagem secreta se abrisse para fugir momentaneamente do seu hermético universo de responsabilidades, protocolos e angústias reais. Com seus métodos pouco ortodoxos para a época, e boa dose de personalidade, Rogue vai gerando e ganhando tanto a desconfiança como a confiança do príncipe, até tornar-se seu chap, seu “chapa”, amigo, camarada (ops, isso não!) e confidente, algo impensável até hoje.

Uma produção de orçamento absurdamente baixo, bem típica dos irmãos Weinstein, torna uma diversão extra observar como o desenhista de produção se esmera para driblar a falta de verba. Os planos são fechados, com poucos objetos de época muito bem valorizados em cada plano, locações semi prontas e a boa sacada para a cena que seria a mais cara, o momento da coroação, na Westminster Abbey. Assim, toda sua atenção se concentra em bons diálogos, entregues por bons atores.




Por isso mesmo, saem daqui dois fortes indicados ao Oscar de coadjuvante. Colin Firth, ótimo como o príncipe e rei, é apoiado pelos grandes Geoffrey Rush, o terapeuta, e pelo charme de Helena Bonham Carter, sua esposa Elizabeth. Com um andamento lento, o roteiro dá tempo para que o trio de ouro construa personagens muito peculiares e envolventes, estabelecendo uma contínua tensão cênica mesmo nos mais longos hiatos silenciosos.

O filme é benevolente ao rei, tanto talvez quanto seu povo o tenha sido na época, em apoio a um monarca correto e que claramente lutava contra a gagueira para enlevar os ingleses durante essa época de nuvens negras. Assim, faz um bem danado até para a família real atual ao humanizar as frias e distantes figuras reais. Uma excelente peça de Royal Marketing.


Cisne Negro (Darren Aronofsky)

Cisne Negro é um razoavelmente ajambrado filme de terror que tem surtos esquizofrênicos, cada vez menos frequentes, em que se acredita drama psicológico. Recoberto com o glacê de uma boa direção de arte, iludiu parte da crítica que o aclamou conceitual e filme de arte. Menos.

Vale muito a vista por vários motivos: consegue ser arrepiante do pelo aos ossos, é intenso, tem um roteiro bem construído e é um alívio assistir Natalie Portman e ver que ela agora, finalmente, parece que vai alçar seu voo.



Como se poderia esperar, a protagonista Nina, integrante perfeccionista de um importante corpo de balé, recria a tragédia do Lago dos Cisnes. Mantida engaiolada como um Cisne Branco por sua Rothbart-Mãe, tem a grande chance de ser erguida rainha pelo diretor artístico Thomas - Siegfried. Mas a indecisão deste pela sensualidade negrocísnica de Lily (do hebraico Lilith, pesquisem na internet) acaba a desesperando. Incapaz de equilibrar os extremos da Castidade e da Lascívia dentro de si (uma metáfora arquetípica possível da dualidade Cisne Branco e Cisne Negro), Nina termina como Freud poderia explicar, completamente histérica.

Cisne Negro quase atinge sua proposta enunciada logo no começo de ser uma versão visceral, mas erra a mão pela falta de auto-confiança, exatamente o problema que o diretor artístico atribui à protagonista Nina. Na tentativa desesperada de garantir a visceralização do espectador, exagera na dose do terror, com edição rebuscada, camera nervosa, sustos pré-fabricados, cenas de horror escatológico, sanguinhos baratos e over-acting de Natalie Portman fazendo cara de choro, e não precisava disso tudo.

A sensação que dá é que toda a equipe se imbuiu da meta e começou a arrancar olhos e intestinos, gritando ”Arghh! Sou visceral! Sou visceral!”. Outra falha patente é a falta de um posicionamento bem definido. Quer atingir tanto a garotas adolescentes (com a temática escolar da santinha pura contra a galinha da classe) quanto adultos, tanto o sexo feminino quanto o masculino. Assim, vira um pastiche disforme que o enfraquece muito como obra, dilui a poesia da ideia.



O interessante de sua trama é criar diversas camadas onde realidade se confunde com a imaginação e a ficção. E o bem sacado dessa ideia é estendê-la ao próprio casting (seleção de atrizes). Como apontado em diversas críticas, é absolutamente maquiavélico (e arrepiante) ver a ascendente Natalie contracenar com a decadente Winona Rider, ela própria uma Natalie Portman em seu tempo, o modelo juvenil-pueril feito de caras e bocas, que jamais avançou além disso.

Já Portman, elogiada por George Lucas por ser muito técnica, mesmo uma filha superprotegida, jamais pareceu viver de fato seus personagens, faltando-lhe justamente sentir e se soltar para ganhar expressão corporal. O filme parece assim, um psicodrama construído para amadurecê-la. Ainda é uma atriz de caras e bocas, mas elas estão mais densas do que nunca e conseguem assim dar credibilidade a uma história simplória e de final risível.

A direção de arte é bem urdida e, esta sim, muito conceitual. A luz é crua e a câmera nervosa persegue a protagonista e a mantém encurralada por um super close claustrofóbico. O uso obrigatório do branco e do negro em cena é consistentemente aplicado, mas não chega a ser original. Vem direto do Morte em Veneza, de Visconti, onde os dois tons disputam centímetro por centímetro o espaço cenográfico em cada plano e representam, um e outro, ora Vida, ora Morte. Contrapõe-se a começar a alvura judaico-novaiorquina de Nina à morenice matreiro-californiana de Lily. Há ainda a insistência perturbadora dos espelhos, onipresentes, indício da dualidade da alma, multifacetados, fragmentados, deformantes, multiplicantes ou estilhaçados, “refletindo” o momento interior da bailarina.

O fato é que nos tempos atuais, repleto de filmes com roteiros industrializados, de progressão mecânica e grande ênfase em pirotecnias, ficamos anormalmente encantados com histórias de estrutura clássica e direção de arte bem pensada.



* textos de Nelson Doy Jr., publicitário, residente no Rio de Janeiro e colunista oficial de cinema deste blog.

11 de jan. de 2011

Zeitgeist: Moving Forward em Salvador




Ana Guedes, do grupo Colegas jornalistas, do qual sou integrante postou essa mensagem e achei interessante compartilhar com a galera B. Ainda não vi, mas confesso que a proposta me pareceu interessante e consistente. Sugiro que todos que vejam, deem retorno a esse blog colocando o tema em discussão. Mais infos sobre o movimento, vejam no site oficial do Zeitgeist.

"Nesta sexta-feira, em Salvador, teremos sessões do filme Zeitgeist: Moving Forward, o novo documentário da série Zeitgeist que irá estrear em aproximadamente 50países e 270 sessões. As sessões acontecem na Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, 27 – Barris), nos dias 15, 16, 17, 18 e 20 de janeiro, às 19h. A entrada também é franca.

O filme foi simultaneamente traduzido para quase 30 idiomas diferentes, pelos diversos chapters do Movimento Zeitgeist no mundo, em um esforço técnico e logístico possivelmente sem precedentes, que envolveu centenas de pessoas trabalhando voluntariamente para traduzir e adaptar um longo e complexo documentário em menos de três semanas.

O Movimento Zeitgeist tem como objetivo lançar um alerta sobre a questão social e ambiental dentro da nossa sociedade, com sugestões e perspectiva de um novo remodelamento de sociedade."

12 de dez. de 2010

Cinematografando: A Rede Social*




Baseado no livro Bilionários Por Acaso, de Ben Mezrich, o filme A Rede Social (David Fincher e Aaron Sorkin, USA, 2010) conta uma interessante história com diversos níveis de compreensão, relatando a pequena epopéia vivida pelo fundador do fenômeno Facebook, Mark Zuckerberg. Cria assim o anti-herói contemporâneo definitivo, suplantando Bill Gates.


Apesar da tentativa de se mostrar imparcial, retratando as ambigüidades da personalidade de Zuckerberg, o ponto-de-vista é nitidamente favorável. Quando não consegue ser favorável por mérito do próprio, o faz com o demérito dos outros. Enquanto isso nos revela o fascinante e perigoso mundo do e-empreendedorismo norte-americano, repleto de cartadas e movimentos agressivos.

A trajetória de Zuckerberg tem muito a ver com as histórias de Bill Gates (leia Hard Drive – Desejo de Vencer, sua biografia não autorizada e certamente inspiração para o storytelling do filme), Steve Jobs (fundador da Apple, demitido pelos capitalistas aos quais abriu participação e depois aclamado de volta ao comando) e do próprio falastrão Sean Parker, fundador falido do polêmico Napster – o compartilhador pirata de arquivos de música - que grudou em Zuckerberg e é seu atual sócio.


O roteiro, maravilhosamente bem costurado por Aaron Sorkin, trata na verdade de dois grandes temas. Relacionamentos e privacidade. No que se refere a relacionamentos, a ironia mais óbvia. Apesar do Facebook ser concebido para permitir que as pessoas se encontrem, o tempo todo os personagens do filme passam por grandes desencontros. Escolhem parceiros errados e erram nas parcerias acertadas.

Zuckerberg, mostrado como um nerd socialmente inepto, tenta “programatizar” as relações por via virtual, mas falha no contato pessoal. De modo geral, todos os personagens sofrem de um horrível egocentrismo, que pauta muito das relações modernas, e, no filme, parece justamente ser o motivo dos problemas de relacionamento. A onda do Twitter é provavelmente o maior exemplo desse culto egocêntrico ao EU. Definitivamente, tecnologia ajuda, mas não resolve. Em última instância, o sucesso de relacionamentos não depende de quantidade, mas de qualidade. O segredo está antes de tudo dentro de nós mesmos, eis a mensagem.


Privacidade é outro tema crucial para o Facebook, que declarou publicamente o fim da “Era da Privacidade”. O filme mostra como somos todos públicos hoje em dia. O enredo todo gira em torno desse publicity que caracteriza as relações humanas contemporâneas.

Pessoas se expõem publicamente no Facebook, revelando até se estão ou não namorando, se envolvem em enormes movimentos de fofocas e boatos que se espalham como fogo em palha (ou como post em blog...), assumindo alternadamente o papel de alvos ou algozes, e salienta ainda como todos podem ser facilmente difamados publicamente em troca de interesses financeiros ou simplesmente decepções sentimentais.


Vivemos em uma era de publicity no qual o Facebook é apenas mais uma ferramenta, que teria mesmo que surgir em algum momento para apoiar essa tendência. A exposição pública pode ser controlada e planejada ou ser feita à força, de maneira negativa, incontrolada ou inconsequente.

A sessão do filme foi curiosamente antecedida por uma ação de comunicação bem interessante realizada pelo portal de notícias iG nos cinemas, que informa na telona suas principais manchetes daquele dia.


E a primeira delas era justamente sobre a prisão de Julian Assange, o fundador do mais polêmico de todos os empreendimentos da internet até agora, o WikiLeaks, que publica vazamentos de informação sigilosa de governos e grandes corporações. Ele está sendo acusado (e difamado) por dois supostos casos de estupro, que nega.

Destaque para a versátil trilha sonora, que consegue mesclar bandas indies atuais como Super Furry Animals e White Stripes intercaladas por mainstreams das antigas como Beatles, Bob Marley e outros nem tanto como The Cramps.




* Texto: Nelson Doy Jr., publicitário, amigo querido que sempre empresta sua mente privilegiada para a seção Cinematografando, deste meu quantinho no cyberespaço. E que curte os espaços reais do Lado B quando vem à soterópolis.

Imagens: www.imdb.com

14 de nov. de 2010

Rebobinando: Tecno Céu - Nosso Lar*



Nosso Lar (Wagner de Assis – 2010) revampiriza o conceito do Céu cristão para os tempos materialistas e tecnológicos em que vivemos, tornando-o muito mais marqueteável.

O filme é baseado na obra homônima de Chico Xavier, ditada pelo próprio personagem principal, o espírito André Luiz, explicando os princípios do Espiritismo kardecista e o funcionamento da colônia Nosso Lar, um entreposto espiritual anterior aos níveis mais elevados.

A história conta a trajetória de André Luiz desde o momento em que desperta desencarnado no Umbral, uma espécie de purgatório, até sua chegada e transformação espiritual na tal colônia, intercalado por flashbacks que reconstroem sua trajetória de vida desde a infância até o momento da morte física.




O conceito celestial é simples. A vida após a morte é exatamente a mesma que aqui na Terra dos encarnados, com todos os sofrimentos físicos e injustiças sociais, só que a moeda agora é outra: méritos espirituais.

Num paralelo com o Rio de Janeiro (a colônia Nosso Lar estaria situada próxima à cidade, apenas em outra dimensão energética), quem pisou na bola vai morar numa favela chamada Umbral, e quem está bem na foto vai morar num condomínio fechado na Barra. A vida na Barra é bem melhor. Lá é arborizado, ensolarado e não precisa nem sair: toda a infra-estrutura já está lá dentro, tem até Aerobus. Tudo é limpo e só tem gente de bem, convivendo num grau de civilidade plácida quase sinistra para nossos padrões.

Já em Umbral o clima é péssimo, sombrio e não oferece mínimas condições sanitárias. Quem já era ruim aqui, lá vai de mal a pior. Figurantes do videoclipe Thriller, que em trinta anos parecem ter melhorado muito pouco, brigam pelo direito de beber uma lama onde nem caranguejo viceja. O objetivo é se arrepender do fundo da alma e ser resgatado dessa lama.



Nosso Lar constroi a partir daí as bases para se tornar o novo clássico do conformismo social. Ao pobre encarnado, oferece a chance de pular direto para a classe alta após a morte. Além disso, cria a espetacular figura do determinismo livre-arbitrário: foi você mesmo quem programou sua trajetória de vida, em modernos iPads celestiais, antes de encarnar para viver o seu roteiro. Para a classe média, o alento é que Lá é quase tão ruim quanto aqui. De mérito em mérito, um trabalhador dedicado leva dezoito anos para comprar uma casa própria. O serviço público também não é lá essas coisas. Apesar de amáveis e atenciosos, tudo leva uma eternidade. A frase “no dia em que for atendido eu já reencarnei” acontece de fato.



De resto, não faz mal. Ensina que abusos cometidos contra o corpo, como beber e comer mal e demais (cigarro implícito) podem caracterizar morte por suicídio inconsciente, o que é garantia de ir direto para o final da fila. Ensina a abandonar o orgulho, a inveja e a preguiça. Ensina que a Terra é o melhor dos planetas para encarnar (consciência ecológica). Ensina a respeitar crianças, idosos e a família porque é provável que em alguma próxima encarnação, seu pai retorne como seu filho adolescente! Ensina a orar pelos falecidos, porque eles recebem as orações num Facebook; super chato eles abrirem e você não estar lá. Aos marxistas, acena com um bem sucedido tecnoparaíso igualitário, baseado em trabalho comunitário. E, acima de tudo, ensina que ser cético não está com nada...



A oportunidade do ano para assistir um filme com sua avó. Sem arrependimento. E vale prestigiar essa iniciativa do cinema nacional de encontrar seu caminho para os blockbusters comerciais, bons de bilheteria. Enquanto os norteamericanos investem em violência, o cinema brasileiro investe em comédias e espiritismo. É outro astral.

Imagens: www.adorocinema.com.br


*Texto de Nelson Doy Jr., publicitário, mora no Rio, mas curte o Lado B de Salvador quando aparece por aqui. Eu e o Nelson nunca debatemos o tema, mas nossas visões sobre espiritualidade são um tanto diferentes (pelo que ele expôs aqui), o que não impede que ele escreva para esse blog e que eu poste seu texto com muito prazer e muita honra. E viva a diversidade!